A torre
erguia-se numa ilha, com a gêmea refletida nas calmas águas azuis.
Quando o vento soprava, ondulações deslocavam-se pela superfície
do lago, perseguindo-se umas às outras como crianças brincando.
Carvalhos cresciam densos ao longo das margens, um bosque cerrado com
um tapete de bolotas caídas por baixo de seus ramos. Depois das
árvores ficava a aldeia, ou aquilo que dela restava.
Era a
primeira aldeia que viam desde que estiveram nos montes. Meera tinha
batido o terreno em frente, para se certificar de que não havia
ninguém escondido entre as ruínas. Caminhando com prudência entre
carvalhos e macieiras, com sua rede e lança na mão, espantou três
veados vermelhos e fez os animais fugirem aos saltos por entre a
vegetação rasteira. Verão viu o movimento repentino e
imediatamente partiu para perseguir os animais. Bran viu o lobo
gigante afastar-se aos saltos, e, por um momento, não havia nada que
desejasse mais do que enfiar-se na pele dele e correr junto, mas
Meera estava acenando para que avançassem. Relutantemente, deu as
costas ao Verão e disse a Hodor para prosseguir até a aldeia. Jojen
acompanhou-os.
Bran
sabia que o terreno dali até a Muralha era composto por pastagens,
campos incultos e colinas baixas e onduladas, prados nas terras altas
e brejos nas baixas. Progrediriam muito mais facilmente do que nas
montanhas que tinham ficado para trás, mas tanto espaço aberto
deixava Meera inquieta.
-
Sinto-me nua - confessou. - Não há lugar para nos escondermos.
- De quem
é esta terra? - perguntou Jojen a Bran.
- Da
Patrulha da Noite - respondeu este. - Esta é a Dádiva. A Nova
Dádiva, e a norte dela fica a Dádiva de Brandon. - Meistre Luwin
ensinara-lhe a história. - Brandon, o Construtor, deu toda a terra a
sul da Muralha aos irmãos negros, dentro de uma distância de vinte
e cinco léguas. Para o seu... para o seu sustento e suporte. -
Sentiu-se orgulhoso por ainda se lembrar daquela parte. - Alguns
meistres dizem que foi outro Brandon qualquer, não o Construtor,
mesmo assim é a Dádiva de Brandon. Milhares de anos mais tarde, a
Boa Rainha Alysanne visitou a Muralha em seu dragão Asaprata e achou
a Patrulha da Noite tão corajosa que levou o Velho Rei a duplicar o
tamanho de suas terras, até cinquenta léguas. Portanto, essa foi a
Segunda Dádiva - Fez um gesto com a mão. - Aqui. Tudo isto.
Bran via
que ninguém vivia na aldeia havia longos anos. Todas as casas
estavam desabando. Até a estalagem. Nunca fora grande coisa como
estalagem, pelo aspecto, mas agora tudo que dela restava era uma
chaminé de pedra e duas paredes rachadas, erguidas no meio de uma
dúzia de macieiras. Uma crescia no meio da sala comum, onde uma
camada de úmidas folhas marrons e maçãs em putrefação atapetava
o chão. O ar estava pesado, com o cheiro que elas exalavam, um odor
nauseabundo de sidra que era quase sufocante. Meera apunhalou algumas
maçãs com sua lança para rãs, tentando encontrar alguma que ainda
estivesse boa para comer, mas estavam todas marrons e bichadas.
Era um
ponto pacífico, calmo, tranquilo e bonito, mas Bran achou que havia
tristeza numa estalagem vazia, e Hodor pareceu sentir isso também.
- Hodor?
- disse ele, com um ar confuso. - Hodor? Hodor?
- Esta
terra é boa. - Jojen pegou um punhado de solo, desfazendo-o entre os
dedos. - Uma aldeia, uma estalagem, uma fortaleza robusta no lago,
todas essas macieiras... mas onde estão as pessoas, Bran? Por que
abandonariam um lugar como este?
- Tinham
medo dos selvagens - disse Bran. - Os selvagens passam por cima da
Muralha ou atravessam as montanhas, para fazer incursões, roubar e
levar mulheres. Se pegam alguém, transformam seu crânio numa taça
para beber sangue, costumava dizer a Velha Ama. A Patrulha da Noite
não é tão forte como foi nos tempos de Brandon ou da Rainha
Alysanne, por isso mais selvagens conseguem passar. Os lugares
próximos da Muralha começaram a ser atacados com tanta frequência
que o povo se mudou para o sul, para as montanhas ou para as terras
dos Umber, a leste da estrada do rei. O povo do Grande-Jon também
era atacado, mas não tanto quanto as pessoas que costumavam viver na
Dádiva.
Jojen
Reed virou a cabeça devagar, ouvindo uma música que só ele era
capaz de ouvir.
- Temos
de nos abrigar aqui. Vem aí uma tempestade. Uma das grandes.
Bran
olhou para o céu. Tinha sido um belo, revigorante e cristalino dia
de outono, ensolarado e quase quente, mas era verdade que agora
surgiam nuvens escuras a oeste, e o vento parecia estar aumentando.
- Não há
telhado na estalagem e só há as duas paredes em pé - ressaltou. -
Deveríamos ir para a fortaleza.
- Hodor -
disse Hodor. Talvez estivesse de acordo.
- Não
temos barco, Bran. - Meera remexeu ociosamente as folhas com a lança
para rãs.
- Há um
caminho elevado na água. Um caminho de pedra, escondido sob a água.
Podíamos chegar lá a pé. - Eles podiam, pelo menos; Bran teria de
ir de cavalinho nos ombros de Hodor, mas pelo menos assim ficaria
seco.
Os Reed
trocaram um olhar.
- Como
sabe disso? - perguntou Jojen. - Já esteve aqui, meu príncipe?
- Não. A
Velha Ama me contou. A torre tem uma coroa dourada, está vendo? -
Apontou para o edifício. Viam-se manchas de tinta dourada
descascando por toda a volta, nas ameias. - A Rainha Alysanne dormiu
ali, e por isso pintaram os merlões de dourado em sua honra.
- Um
caminho elevado? - Jojen estudou o lago. - Tem certeza?
-
Absoluta - disse Bran.
Meera
encontrou o início com bastante facilidade, depois de saber o que
procurar; um caminho de pedra, com um metro de largura, projetado
diretamente para dentro do lago. Levou os outros passo a passo, com
toda a cautela, testando o caminho com a lança para rãs. Eles viram
o local onde o caminho voltava a emergir, saindo da água para a ilha
e transformando-se num curto lance de degraus de pedra que levavam à
porta da fortaleza.
Trilha,
degraus e porta estavam dispostos em linha reta, o que levava a
pensar que o caminho elevado seguia direto, mas não era assim. Sob o
lago, ele ziguezagueava, rodeando um terço da ilha antes de fazer
uma curva brusca para o outro lado. As curvas eram traiçoeiras, e o
longo caminho significava que qualquer um que se aproximasse estaria
exposto durante muito tempo a tiros de flecha vindos da torre. Além
disso, as pedras escondidas estavam cobertas de lodo e eram
escorregadias; por duas vezes, Hodor quase pisou em falso e gritou
"HODOR!", alarmado, antes de recuperar o equilíbrio. A
segunda vez assustou fortemente Bran. Se Hodor caísse no lago com
ele no cesto, podia muito bem se afogar, especialmente se o enorme
cavalariço entrasse em pânico e se esquecesse de que Bran estava
lá, como às vezes acontecia. Talvez devêssemos ter ficado na
estalagem, debaixo da macieira, pensou, mas a essa altura era tarde
demais.
Felizmente,
não houve uma terceira vez, e a água nunca chegou a ultrapassar a
cintura de Hodor, embora chegasse ao peito dos Reed. E não muito
tempo depois estavam na ilha, subindo os degraus que levavam à
fortaleza. A porta ainda era robusta, embora suas pesadas tábuas de
carvalho tivessem se deformado com os anos e já não fosse possível
fechá-la por completo. Meera abriu-a toda, fazendo as enferrujadas
dobradiças de ferro gritar. O lintel era baixo.
- Abaixe,
Hodor - disse Bran, e o cavalariço obedeceu, mas não o suficiente
para evitar que Bran batesse a cabeça. - Isso doeu - protestou.
- Hodor -
disse Hodor, endireitando-se.
Encontravam-se
numa caixa-forte sombria, que mal tinha espaço para abrigar os
quatro. Degraus esculpidos na parede interior da torre curvavam-se
para cima à esquerda e para baixo à direita, por trás de grades de
ferro. Bran olhou para cima e viu outra grade bem acima de sua
cabeça. Um alçapão. Sentiu-se feliz por não haver ninguém agora
lá em cima para despejar óleo fervente por cima deles.
As grades
estavam trancadas, mas as barras de ferro encontravam-se vermelhas de
ferrugem. Hodor agarrou a porta da esquerda e deu um puxão nela,
grunhindo com o esforço. Nada aconteceu. Tentou empurrar, sem
sucesso. Sacudiu as barras, chutou-as, empurrou-as com o ombro,
chacoalhou-as e esmurrou as dobradiças com uma mão enorme até
deixar o ar cheio de lascas de ferrugem, mas a porta de ferro não se
movia. A que levava ao porão não se mostrou mais cooperante.
- Não há
como entrar - disse Meera, encolhendo os ombros.
O alçapão
ficava bem acima da cabeça de Bran, sentado ali em seu cesto às
costas de Hodor. O garoto estendeu as mãos e agarrou-se às barras,
para testá-las. Quando puxou para baixo, a grade desprendeu-se do
teto, numa cascata de ferrugem e pedra esmigalhada.
- HODO! -
gritou Hodor. A pesada grade de ferro deu a Bran outra pancada na
cabeça e caiu com estrondo junto aos pés de Jojen quando ele a
afastou com as mãos, Meera soltou uma gargalhada.
- Veja
só, meu príncipe - disse - você é mais forte do que Hodor. - Bran
corou.
Com a
grade fora do caminho, Hodor foi capaz de erguer Meera e Jojen
através do alçapão escancarado. Os cranogmanos pegaram Bran pelos
braços e puxaram-no também. Fazer Hodor entrar foi a parte difícil.
Ele era pesado demais para os Reed o erguerem como tinham feito com
Bran. Por fim, Bran disse-lhe para procurar algumas pedras grandes.
Disso a ilha não tinha falta, e Hodor conseguiu empilhá-las até a
altura suficiente para se agarrar às bordas esfareladas do alçapão
e subir por ele.
- Hodor -
ofegou em tom feliz, sorrindo para todos eles.
Viram-se
num labirinto de pequenas celas, escuras e vazias, mas Meera explorou
até encontrar o caminho de volta aos degraus. Quanto mais subiam,
melhor era a luz; no terceiro andar a espessa parede exterior era
perfurada por seteiras, o quarto tinha janelas de verdade e o quinto
e último era um grande aposento redondo com portas em arco em três
lados que se abriam para pequenas varandas de pedra. No quarto ao
lado ficava uma latrina, empoleirada por cima de uma calha de
escoamento que descarregava diretamente no lago.
Quando
chegaram ao telhado, o céu estava completamente encoberto, e as
nuvens para oeste mostravam-se negras. O vento soprava com tanta
força que levantou o manto de Bran e fez com que ondulasse e
batesse.
- Hodor -
respondeu Hodor ao barulho.
Meera
descreveu um círculo.
-
Sinto-me quase uma gigante, aqui por cima do mundo.
- Há
árvores no Gargalo que são duas vezes mais altas do que isto -
lembrou-lhe o irmão.
- Sim,
mas têm outras árvores em volta com a mesma altura - disse Meera. -
O mundo no Gargalo é apertado, e o céu é muito menor. Aqui...
sente este vento, irmão? E olhe como o mundo se tornou grande.
Era
verdade, dali via-se a uma longa distância. A sul erguiam-se os
sopés dos montes, com as montanhas cinzentas e verdes mais atrás.
As planícies onduladas da Nova Dádiva estendiam-se a perder de
vista em todas as outras direções.
- Tinha
esperança de conseguirmos ver a Muralha daqui - disse Bran,
desapontado. - Foi besteira, ainda devemos estar a cinquenta léguas
de distância. - Só de falar nisso sentia-se cansado e com frio
também. - Jojen, o que faremos quando chegarmos à Muralha? Meu tio
contava sempre como ela é grande. Duzentos metros de altura, e tão
espessa na base que os portões são como túneis abertos no gelo.
Como é que vamos passar para ir à procura do corvo dos três olhos?
- Há
castelos abandonados ao longo da Muralha, segundo ouvi dizer -
respondeu Jojen. - Fortalezas construídas pela Patrulha da Noite,
mas agora deixadas sem guarnição. Uma delas pode ser o caminho para
passar.
A Velha
Ama chamava-os de castelos fantasma. Uma vez, Meistre Luwin obrigara
Bran a aprender o nome de todos os fortes ao longo da Muralha. Foi
uma tarefa difícil; havia dezenove ao todo, embora não mais de
dezessete tivessem tido, em algum momento, guarnição. No banquete
dado por ocasião da visita do Rei Robert a Winterfell, Bran recitou
os nomes para o tio Benjen, de leste para oeste e depois de oeste
para leste. Benjen Stark riu e disse:
- Você
os conhece melhor do que eu, Bran. Talvez devesse ser você o
Primeiro Patrulheiro. Eu fico aqui no seu lugar. - Mas isso foi antes
de Bran cair. Antes de ficar mutilado. Quando acordou aleijado de seu
sono, o tio já tinha retornado para Castelo Negro.
- Meu tio
dizia que os portões eram selados com gelo e pedras sempre que um
castelo tinha de ser abandonado - disse Bran.
- Então
teremos de abri-los de novo - disse Meera.
Aquilo
deixou-o inquieto.
- Não
devíamos fazer isso. Podem entrar coisas más vindas do outro lado.
Devíamos simplesmente ir a Castelo Negro e dizer ao Senhor
Comandante para nos deixar passar.
- Vossa
Graça - disse Jojen - temos de evitar Castelo Negro, tal como
evitamos a estrada do rei. Há centenas de homens lá.
- Homens
da Patrulha da Noite - disse Bran. - Eles prestam juramentos, de não
participar de guerras ou algo parecido.
- Sim -
disse Jojen - mas bastaria um homem disposto a quebrar seu juramento
para vender o seu segredo aos homens de ferro ou ao Bastardo de
Bolton. E não temos certeza se a Patrulha concordaria em nos deixar
passar. Podiam decidir nos reter ou nos mandar de volta.
- Mas meu
pai era amigo da Patrulha da Noite, e meu tio é Primeiro
Patrulheiro. Talvez ele saiba onde vive o corvo de três olhos. E Jon
também está em Castelo Negro. - Bran acalentara a esperança de
voltar a ver Jon e o tio. Os últimos irmãos negros a visitar
Winterfell disseram que Benjen Stark tinha desaparecido durante uma
patrulha, mas certamente já teria encontrado uma forma de voltar. -
Aposto que a Patrulha até nos daria cavalos - prosseguiu.
-
Silêncio. - Jojen fez sombra com a mão sobre os olhos e olhou na
direção do sol poente. - Olhem. Há alguma coisa... um cavaleiro,
parece. Conseguem vê-lo?
Bran
também fez sombra com a mão sobre os olhos, e mesmo assim teve de
semicerrá-los. A princípio nada viu, até que um movimento o fez
virar-se. Pensou que poderia ser o Verão, mas não era. Um homem a
cavalo. Estava afastado demais para conseguir ver muito mais do que
isso.
- Hodor?
- Hodor também tinha posto a mão sobre os olhos, mas estava olhando
para o lugar errado. - Hodor?
- Ele não
vem com pressa - disse Meera mas parece-me que se dirige para esta
aldeia.
- E
melhor irmos para dentro antes que sejamos vistos - disse Jojen.
- Verão
está perto da aldeia - objetou Bran.
- Verão
vai ficar bem - prometeu Meera. - E só um homem montado num cavalo
cansado.
Algumas
gotas gordas começaram a bater contra a pedra na hora em que o grupo
se retirava para o andar inferior. O momento foi bem escolhido; a
chuva começou a cair forte pouco tempo depois. Conseguiam ouvi-la
vergastando a superfície do lago mesmo através das espessas
paredes. Sentaram-se no chão da sala redonda e vazia, no meio das
sombras que aumentavam. A varanda virada para o norte dava para a
aldeia abandonada. Meera rastejou até lá fora, para espreitar por
sobre o lago e ver o que tinha acontecido ao cavaleiro.
- Ele
abrigou-se nas ruínas da estalagem - disse-lhes quando voltou para
dentro - Parece que está fazendo uma fogueira na lareira.
-
Gostaria que pudéssemos fazer o mesmo - disse Bran - Estou com frio.
Há mobília quebrada no fundo das escadas, eu vi. Poderíamos botar
o Hodor para cortá-la e nos aquecermos.
Hodor
gostou da idéia.
- Hodor -
disse, em tom esperançoso.
Jojen
sacudiu a cabeça.
- Fogo
significa fumaça. Fumaça vinda desta torre pode ser vista a longa
distância.
- Se
houver alguém para ver - argumentou a irmã.
- Há o
homem na aldeia.
- Um
homem.
- Um
homem seria o suficiente para levar Bran aos seus inimigos, se for o
homem errado. Ainda temos meio pato que sobrou de ontem. Devíamos
comer e descansar. Ao amanhecer, o homem seguirá caminho e nós
faremos o mesmo.
Jojen
conseguiu o que queria; conseguia sempre, Meera dividiu o pato entre
os quatro. Apanhara-o com sua rede no dia anterior, no momento em que
a ave tentava levantar voo do charco onde foi surpreendida. Não era
tão saboroso frio como havia sido quente e crocante, recém-saído
do espeto, mas pelo menos não iriam passar fome, Bran e Meera
dividiram o peito, enquanto Jojen comeu a sobrecoxa. Hodor devorou a
asa e a coxa, murmurando "Hodor" e lambendo a gordura dos
dedos após cada mordida. Era a vez de Bran de contar uma história,
e falou-lhes de outro Brandon Stark, aquele que chamavam de Brandon,
o Construtor Naval, o qual velejara para lá do Mar do Poente.
Caía o
crepúsculo quando pato e história terminaram e a chuva continuava
caindo. Bran perguntou a si mesmo se Verão estaria muito longe e se
teria caçado algum dos veados. Sombras cinzentas encheram a torre e,
lentamente, foram se transformando em escuridão. Hodor ficou
inquieto e começou a andar circulando as paredes, parando toda vez
que passava pela latrina, para espiar lá dentro, como se tivesse se
esquecido do que havia ali. Jojen ficou em pé, junto da varanda
norte, escondido pelas sombras, olhando para a noite e para a chuva.
Em algum lugar para o norte, um relâmpago ziguezagueou pelo céu,
iluminando o interior da torre por um instante. Hodor deu um salto e
soltou um ruído assustado. Bran contou até oito, à espera do
trovão.
Quando
ele chegou, Hodor gritou:
- Hodor!
Espero
que o Verão não esteja assustado também, pensou Bran. Os cães nos
canis de Winterfell sempre assustavam-se com as trovoadas, assim como
Hodor, Devia ir ver o companheiro, para acalmá-lo...
O
relâmpago voltou a cair e dessa vez o trovão chegou aos seis.
- Hodor!
- berrou de novo Hodor. - HODOR! HODOR! - Pegou a espada, como que
para lutar com a tempestade.
Jojen
disse:
- Quieto,
Hodor. Bran, diga para ele não gritar. Consegue tirar a espada dele,
Meera?
- Posso
tentar.
- Hodor,
chiu - disse Bran. - Fique calado. Chega desse estúpido hodorar.
Sente-se.
- Hodor?
- o grande homem entregou obedientemente a espada a Meera, mas seu
rosto era uma máscara de confusão.
Jojen
voltou a se virar para a escuridão, e todos o ouviram prender a
respiração.
- O que
se passa? - perguntou Meera.
- Homens
na aldeia.
- O homem
que vimos antes?
- Outros
homens. Armados. Vi um machado e lanças também - Nunca antes Jojen
tinha soado tanto como o garoto que era. - Vi-os quando o relâmpago
caiu, em movimento entre as árvores.
-
Quantos?
- Muitos
e mais ainda. Demais para contar.
-
Montados?
- Não.
- Hodor.
- Hodor parecia assustado - Hodor. Hodor.
Bran
também se sentia um pouco assustado, embora não quisesse admitir
isso na frente de Meera.
- E se
vierem até aqui?
- Não
virão. - Ela sentou-se a seu lado. - Por que viriam?
- Em
busca de abrigo. - A voz de Jojen era lúgubre. - A menos que a
tempestade passe. Meera, você pode ir até lá embaixo barrar a
porta?
- Nem
sequer conseguiria fechá-la. A madeira está deformada demais. Mas
eles não passarão por aqueles portões de ferro.
- Podem
passar. Podiam quebrar a fechadura, ou as dobradiças. Ou subir pelo
alçapão, como nós fizemos.
Um
relâmpago rasgou o céu e Hodor choramingou. Então, um grande
trovão rolou por sobre o lago.
- HODOR -
rugiu o cavalariço, apertando as orelhas com as mãos e andando em
círculos e aos tropeções através das trevas. - HODOR! HODOR!
HODOR!
- NÁO! -
gritou-lhe Bran. - PARE DE HODORAR!
De nada
serviu.
-
HOOOODOR! - gemeu Hodor. Meera tentou segurá-lo e acalmá-lo, mas
ele era forte demais. Atirou-a para o lado com apenas um encolher de
ombros. - HOOOOOODOOOOOOOR! - gritou o cavalariço quando um
relâmpago voltou a encher o céu, e agora até Jojen estava
gritando, gritando para que Bran e Meera calassem Hodor,
- Fique
quieto! - disse Bran numa voz esganiçada e assustada, tentando
inutilmente alcançar a perna de Hodor quando ele passou ao seu lado,
tentando alcançá-lo, tentando alcançá-lo.
Hodor
vacilou e fechou a boca. Balançou lentamente a cabeça de um lado
para o outro, deixou-se cair de novo no chão e sentou-se de pernas
cruzadas. Quando o trovão ressoou, pareceu quase não ouvi-lo. Os
quatro ficaram sentados na torre escura, quase sem se atreverem a
respirar.
- Bran, o
que você fez? - murmurou Meera,
- Nada. -
Bran sacudiu a cabeça. - Não sei. - Mas sabia. Consegui alcançá-lo,
da mesma forma que consigo alcançar o Verão. Bran tinha sido Hodor
durante meio segundo. Aquilo assustava-o.
- Está
acontecendo alguma coisa para lá do lago - disse Jojen. - Acho que
vi um homem apontando para a torre.
Não vou
ter medo. Ele era o Príncipe de Winterfell, filho de Eddard Stark,
quase um homem-feito e, além disso, um warg, já não era um
garotinho como Rickon. Verão não teria medo.
- O mais
provável é que sejam homens dos Umber - disse. - Ou podem ser
Knott, Norrey ou Flint descidos das montanhas, ou mesmo irmãos da
Patrulha da Noite. Usavam mantos negros, Jojen?
- De
noite, todos os mantos são negros, Vossa Graça. E o relâmpago
apareceu e desapareceu depressa demais para eu ver o que vestiam.
Meera
mostrava-se prudente.
- Se
fossem irmãos negros, estariam montados, não é verdade?
Bran
tinha pensado em outra coisa.
- Não
importa - disse com confiança. - Eles não poderiam chegar até nós,
mesmo se quisessem. A não ser que tenham um barco ou saibam do
caminho pela água.
- O
caminho elevado! - Meera esfregou os cabelos de Bran e beijou-o na
testa. - Nosso querido príncipe! Ele tem razão, Jojen, esses homens
não sabem do caminho elevado. E mesmo se soubessem, nunca o
encontrariam à noite e na chuva.
- Mas a
noite terminará. Se ficarem até de manhã... - Jojen deixou o resto
por dizer. Uns momentos mais tarde, disse: - Eles estão alimentando
a fogueira que o primeiro homem acendeu. - Um relâmpago cruzou o
céu, e a luz encheu a torre e delineou-os nas sombras. Hodor
balançava-se de um lado para o outro, cantarolando.
Bran
conseguiu sentir o medo de Verão naquele instante luminoso. Fechou
dois olhos e abriu um terceiro, e sua pele de garoto deslizou de cima
de si como um manto ao deixar a torre para trás...
... e se
ver na chuva, com a barriga cheia de veado, aninhando-se com medo na
vegetação rasteira enquanto o céu se abria e ressoava por cima de
si. O cheiro de maçãs podres e folhas molhadas quase afogava o odor
dos homens, mas ele estava lá. Ouviu o tinir e deslizar da pele
dura, viu homens se deslocando sob as árvores. Um homem com um
pedaço de madeira e uma pele puxada por cima da cabeça passou por
ele aos tropeções, deixando-o cego e surdo. O lobo rodeou-o a
distância, por trás de um espinheiro que gotejava e por baixo dos
ramos nus de uma macieira. Conseguia ouvi-los conversando, e sentiu,
sob os odores de chuva, folhas e cavalo, o fedor vivo e vermelho do
medo...
PARE DE HODORAR!!!
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