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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CRÔNICAS DE GELO E FOGO



- A GUERRA DOS TRONOS
- A FÚRIA DOS REIS
- A TORMENTA DE ESPADAS
- O FESTIM DOS CORVOS
- A DANÇA DOS DRAGÕES
- OS VENTOS DO INVERNO (só depende do autor, previsto p/ 2015)

GLOSSÁRIO

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

GUERRA DOS TRONOS




AS CRÔNICAS DE GELO
E FOGO
LIVRO UM
A GUERRA DOS TRONOS
Tradução
Jorge Candeias
2010 


PRÓLOGO
1 - BRAN
2 - CATELYN
3 - DAENERYS
4 - EDDARD
5 - JON
6 - CATELYN
7 - ARYA
8 - BRAN
9 - TYRION
10 - JON
11 - DAENERYS
12 - EDDARD
13 - TYRION
14 - CATELYN
15 - SANSA
16 - EDDARD
17 - BRAN
18 - CATELYN
19 - JON
20 - EDDARD
21 - TYRION
22 - ARYA
23 - DAENERYS
24 - BRAN
25 - EDDARD
26 - JON
27 - EDDARD
28 - CATELYN
29 - SANSA
30 - EDDARD
31 - TYRION
32 - ARYA
33 - EDDARD
34 - CATELYN
35 - EDDARD
36 - DAENERYS
37 - BRAN
38 - TYRION
39 - EDDARD
40 - CATELYN
41 - JON
42 - TYRION
43 - EDDARD
44 - SANSA
45 - EDDARD
46 - DAENERYS
47 - EDDARD
48 - JON
49 - EDDARD
50 - ARYA
51 - SANSA
52 - JON
53 - BRAN
54 - DAENERYS
55 - CATELYN
56 - TYRION
57 - SANSA
58 - EDDARD
59 - CATELYN
60 - JON
61 - DAENERYS
62 - TYRION
63 - CATELYN
64 - DAENERYS
65 - ARYA
66 - BRAN
67 - SANSA
68 - DAENERYS
69 - TYRION
70 - JON
71 - CATELYN
72 -DAENERYS

GLOSSÁRIO



terça-feira, 10 de setembro de 2013

72 -DAENERYS


A terra era vermelha, morta e ressequida, e era difícil encontrar boa madeira. Os forrageiros regressaram com algodoeiros nodosos, arbustos roxos, feixes de grama seca. Abateram as duas árvores menos retorcidas, desbastaram os galhos, arrancaram a casca e dividiram-nas, dispondo as toras em quadrado. Encheram o centro com palha, arbustos, aparas de casca de árvore e fardos de mato seco. Rakharo escolheu um garanhão da pequena manada que lhes restava; não era tão nobre como o vermelho de Khal Drogo, mas poucos cavalos o eram. No centro do quadrado, Aggo deu-lhe uma maçã mirrada e o abateu num instante com um golpe de machado dado entre os olhos.
Atada de pés e mãos, Mirri Maz Duur observava da poeira com inquietação em seus olhos negros.
- Não basta matar um cavalo - disse a Dany. - Em si mesmo, o sangue não é nada. Não sabe as palavras para fazer um feitiço, nem tem a sabedoria para encontrá-las. julga que a magia de sangue é um jogo de crianças? Chamam-me maegi como se fosse uma praga, mas tudo o que isso significa é sábio. E uma criança, com a ignorância de uma criança. Seja o que for que pretenda fazer, não dará resultado. Solte-me destes nós, e eu a ajudo.
- Estou farta dos zurros da maegi - disse Dany a Jhogo.
Ele brindou-a com o chicote, e depois daquilo a esposa de deus manteve-se em silêncio.
Por cima da carcaça do cavalo, construíram uma plataforma de toras decepadas; troncos de árvores menores e braços das maiores, e os mais grossos e direitos galhos que conseguiram encontrar. Dispuseram a madeira de leste para oeste, do nascente ao poente. Sobre a plataforma, empilharam os tesouros de Khal Drogo: sua grande tenda, os coletes pintados, as selas e arreios, o chicote que o pai lhe dera quando se fizera um homem, o arakh que usara para matar Khal Ogo e o filho, um grande arco de osso de dragão. Aggo queria juntar também as armas que os companheiros de sangue de Drogo tinham dado a Dany como presentes de noivado, mas ela o proibiu.
- Essas são minhas - disse-lhe - e quero ficar com elas - outra camada de arbustos foi depositada em volta dos tesouros do khal, e feixes de mato seco foram espalhados sobre eles.
Sor Jorah Mormont puxou-a de lado quando o sol se aproximava do zénite.
- Princesa... - começou.
- Por que me chama assim? - desafiou Dany. - Meu irmão Viserys era seu rei, não é verdade?
- Era, senhora.
- Viserys está morto. Eu sou sua herdeira, o último sangue da Casa Targaryen. O que quer que fosse dele é agora meu.
- Minha... rainha - disse Sor Jorah, caindo sobre um joelho. - Minha espada, que era dele, é sua, Daenerys. E o meu coração também, que nunca pertenceu a vosso irmão. Sou apenas um cavaleiro, e nada tenho a oferecer-lhe exceto o exílio, mas escute-me, suplico-lhe. Esqueça Khal Drogo. Não estará só. Prometo-lhe que nenhum homem a levará para Vaes Dothrak a menos que deseje ir. Não tem de se juntar às dosh khaken. Venha para o leste comigo, Yi Ti, Qarth, o Mar de Jade, Asshai da Sombra. Veremos todas as maravilhas que ainda há para ver, e beberemos os vinhos que os deuses achem por bem nos oferecer. Por favor, khakesi. Sei o que pretende fazer. Não o faça. Não o faça.
- Tenho de fazê-lo - disse-lhe Dany. Tocou-lhe o rosto, com carinho, com tristeza. - O senhor não compreende.
- Compreendo que o amava - disse Sor Jorah com uma voz carregada de desespero. - Há tempos amei a senhora minha esposa, mas não morri com ela. É a minha rainha, a minha espada é sua, mas não me peça para me afastar enquanto sobe para a pira de Drogo, Não a verei arder.
- É isso o que teme? - Dany deu-lhe um leve beijo na testa larga. - Não sou assim tão infantil, querido sor.
- Não planeja morrer com ele? Jura, minha rainha?
-Juro - disse ela no Idioma Comum dos Sete Reinos que por direito eram seus.
O terceiro nível da plataforma foi tecido com ramos que não eram mais grossos que um dedo, e coberto com folhas e raminhos secos. Dispuseram-nos de norte a sul, do gelo ao fogo, e em cima colocaram uma grande pilha de suaves almofadas e sedas de dormir. O sol começava a baixar em direção a oeste quando terminaram. Dany chamou os dothrakis. Restavam menos de uma centena. Com quantos começara Aegon?, perguntou ela a si mesma. Não importava.
- Serão o meu khalasar - disse-lhes. - Vejo os rostos de escravos. Liberto-os. Tirem as coleiras. Partam se quiser, ninguém lhes fará mal. Se ficarem, serão como irmãos e irmãs, maridos e esposas - os olhos negros observavam, cautelosos, sem expressão. - Vejo crianças, mulheres, os rostos enrugados dos idosos. Ontem era uma criança. Hoje sou uma mulher. Amanhã serei velha. A cada um de vocês digo: deem-me suas mãos e os seus corações, e haverá sempre lugar para todos - virou-se para os três jovens guerreiros do seu khas. - Jhogo, a você ofereço o chicote de cabo de prata que foi meu presente de noivado, nomeio-o ko e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal.
Jhogo aceitou o chicote de suas mãos, mas o rosto mostrava confusão.
- Khakesi - disse hesitantemente - isto não se faz. Seria uma vergonha ser companheiro de sangue de uma mulher.
- Aggo - chamou Dany, sem prestar atenção às palavras de Jhogo. Se olhar para trás, estou perdida. - A você ofereço o arco de osso de dragão que foi meu presente de noivado - tinha dupla curvatura, era de um negro brilhante e requintado, mais alto que ela. - Nomeio-o ko, e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal,
Aggo aceitou o arco com os olhos baixos.
- Não posso dizer essas palavras. Só um homem pode liderar um khalasar ou nomear um ko.
- Rakharo - disse Dany, virando as costas à recusa - você ficará com o grande arakh que foi meu presente de noivado, com ouro incrustado no cabo e na lâmina. E também o nomeio ko, e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal.
- É khaleesi - disse Rakharo, recebendo o arakh. - Cavalgarei ao seu lado até Vaes Dothrak sob a Mãe das Montanhas, e a manterei a salvo do mal até ocupar o seu lugar com as feiticeiras do dosh khaleen. Não posso prometer mais.
Ela acenou, tão calmamente como se não tivesse ouvido sua resposta, e virou-se para o último de seus campeões.
- Sor Jorah Mormont - disse - primeiro e maior dos meus cavaleiros, não tenho presente de noivado para lhe oferecer, mas juro que um dia receberá das minhas mãos uma espada longa como o mundo nunca viu outra igual, forjada por um dragão e feita de aço valiriano. E quero pedir também seu juramento.
- É seu, minha rainha - disse Sor Jorah, ajoelhando-se para depositar a espada aos pés dela. -Juro servi-la, obedecê-la, morrer pela senhora se for necessário.
- Aconteça o que acontecer?
- Aconteça o que acontecer.
- Lembrarei desse juramento. Rezo para que nunca se arrependa de tê-lo feito - Dany o fez se levantar. Pondo-se na ponta dos pés para lhe chegar aos lábios, deu um leve beijo no cavaleiro e disse: - É o primeiro da minha Guarda Real.
Conseguia sentir os olhos do khalasar postos nela ao entrar na tenda. Os dothrakis resmungavam e lançavam-lhe estranhos olhares de soslaio com seus olhos escuros e amendoados. Dany compreendeu que a julgavam louca. Talvez estivesse. Saberia em breve. Se olhar para trás, estou perdida,
O banho estava escaldando quando Irri a ajudou a entrar na banheira, mas Dany não vacilou nem gritou. Gostava do calor. Fazia-a sentir-se limpa. Jhiqui aromatizara a água com os óleos que Dany encontrara no mercado em Vaes Dothrak; o vapor subia úmido e odorífero. Doreah lavou-lhe os cabelos e os escovou, soltando os nós e os desembaraçando. Irri escovou-lhe as costas. Dany fechou os olhos e deixou que o cheiro e a tepidez a envolvessem. Sentia o calor ensopando a região machucada entre as coxas. Estremeceu quando a penetrou, e sua dor e rigidez pareceram se dissolver. Flutuou.
Quando ficou limpa, as aias ajudaram-na a sair da água. Irri e Jhiqui secaram-na, enquanto Doreah lhe escovava os cabelos até deixá-los como um rio de prata que lhe descia pelas costas. Perfumaram-na com florespeciaria e canela; uma gota em cada pulso, atrás das orelhas, na ponta dos seios pesados de leite. O último salpico destinava-se ao sexo. O dedo de Irri foi tão ligeiro e fresco como o beijo de um amante ao deslizar suavemente entre seus lábios.
Depois, Dany mandou todos embora para que pudesse preparar Khal Drogo para a sua última cavalgada às terras da noite. Lavou-lhe o corpo e escovou e oleou seus cabelos, fazendo correr os dedos por eles uma última vez, sentindo-lhes o peso, recordando a primeira vez que os tocara, na noite da cavalgada de casamento. Seus cabelos nunca foram cortados. Quantos homens podiam morrer sem nunca terem cortado os cabelos? Submergiu o rosto neles e inalou a escura fragrância dos óleos. Cheirava a erva e a terra quente, a fumaça, a sêmen e a cavalos. Cheirava a Drogo. Perdoa-me, sol da minha vida, pensou. Perdoa-me por tudo o que fiz e por tudo o que tenho de fazer. Paguei o preço, minha estrela, mas foi alto demais, alto demais...
Dany entrançou seus cabelos, prendeu seus anéis de prata no bigode e pendurou as campainhas, uma a uma. Tantas campainhas, de ouro, prata e bronze. Campainhas para que os inimigos o ouvissem chegar e ficassem fracos de medo. Vestiu-o com calções de pelo de cavalo e botas altas, afivelando à cintura um pesado cinto de medalhões de ouro e prata. Sobre seu peito marcado por cicatrizes, enfiou um colete pintado, velho e desbotado, aquele de que Drogo mais gostava. Para si escolheu calças largas de sedareia, sandálias atadas até o meio da perna e um colete como o de Drogo.
O sol estava descendo quando voltou a chamá-los para levarem o corpo dele até a pira. Os dothrakis observaram em silêncio quando Jhogo e Aggo o trouxeram da tenda. Dany os seguia. Depositaram-no nas almofadas e sedas, com a cabeça voltada para a Mãe das Montanhas, lá longe para nordeste,
- Óleo - ordenou ela, e trouxeram os jarros e despejaram o óleo sobre a pira, empapando as sedas, os arbustos e os feixes de mato seco, até que pingou sob as toras e o ar ficou rico de fragrâncias. - Tragam-me os meus ovos - ordenou Dany às aias. Algo na sua voz as fez correr.
Sor Jorah pegou-lhe no braço.
- Minha rainha, Drogo não terá nenhuma utilidade para ovos de dragão nas terras da noite. E melhor vendê-los em Asshai. Venda um, e poderá comprar um navio que nos leve de volta para as Cidades Livres. Venda os três, e será uma mulher abastada até o fim dos seus dias.
- Não me foram dados para vender - disse-lhe Dany.
Subiu ela mesma na pira para colocar os ovos em volta do seu sol-e-estrelas. O negro junto ao coração, debaixo do braço. O verde ao lado da cabeça, com a trança enrolada nele. O creme e dourado entre as pernas. Quando o beijou pela última vez, Dany sentiu a doçura do óleo em seus lábios. Ao descer da pira, reparou que Mirri Maz Duur a observava.
- É louca - disse roucamente a esposa de deus.
- Há assim tão grande distância entre a loucura e a sabedoria? - perguntou Dany. - Sor Jorah, ate esta maegi à pira.
- À pir... minha rainha, não, escute-me...
- Faça o que eu digo - mesmo assim, ele hesitou até que a ira dela flamejou. - Jurou me obedecer, acontecesse o que acontecesse. Rakharo, ajude-o.
A esposa de deus não gritou quando a arrastaram para a pira de Khal Drogo e a prenderam entre os seus tesouros. Foi a própria Dany quem despejou o óleo na cabeça da mulher.
- Agradeço-lhe, Mirri Maz Duur - disse - pelas lições que me ensinou.
- Não me ouvirá gritar - respondeu Mirri enquanto o óleo lhe pingava da cabeça e ensopava as suas roupas.
- Ouvirei - disse Dany - mas o que quero não são os seus gritos, só a sua vida. Lembro-me do que me disse. Só a morte pode pagar pela vida - Mirri Maz Duur abriu a boca, mas não respondeu. Ao se afastar, Dany viu que o desprezo tinha desaparecido dos olhos negros e achatados da maegi, no seu lugar havia algo que poderia ser medo. Depois, nada ficou por fazer, a não ser observar o sol e procurar a primeira estrela. Quando um senhor dos cavalos morre, seu cavalo é morto com ele, para que possa montar orgulhoso nas terras da noite. Os corpos são queimados a céu aberto, e o khal ergue-se na sua montaria de chamas para ocupar o seu lugar entre as estrelas. Quanto mais ferozmente o homem tiver queimado em vida, mais brilhante sua estrela será na escuridão.
Jhogo a viu primeiro.
- Ali - disse ele numa voz abafada. Dany olhou e a viu, baixa, no leste. A primeira estrela era um cometa que ardia, vermelho. Vermelho de sangue; vermelho de fogo; a cauda do dragão. Não poderia ter pedido um sinal mais forte.
Dany tirou o archote da mão de Aggo e o enfiou entre as toras. O óleo pegou fogo de imediato, os arbustos e o mato seco um instante depois. Minúsculas chamas correram pela madeira como velozes ratos vermelhos, patinando sobre o óleo e saltando de casca em ramo, de ramo em folha. Um calor que aumentava soprou-lhe no rosto, suave e súbito como o hálito de um amante, mas em segundos se tornara quente demais para suportar.
Dany deu um passo atrás, A madeira estalou, cada vez mais alto. Mirri Maz Duur começou a cantar numa voz estridente e ululante. As chamas rodopiaram e contorceram-se, fazendo corridas umas com as outras pela plataforma acima. O ocaso ondulou quando o próprio ar pareceu liquefazer-se com o calor. Dany ouviu toras que se fendiam e estalavam. O fogo envolveu Mirri Maz Duur. A canção dela tornou-se mais sonora, mais estridente... e então arquejou, uma vez e outra, e a canção transformou-se num lamento trêmulo, agudo, sonoro e cheio de agonia.
E agora as chamas chegavam ao seu Drogo, e o rodeavam por completo. Suas roupas pegaram fogo, e por um instante o khal ficou vestido com farrapos de flutuante seda cor de laranja e elos de fumaça rodopiante, cinzenta e oleosa. Os lábios de Dany abriram-se, e ela deu por si prendendo a respiração.
Parte de si queria ir com ele, como Sor Jorah temera, correr para as chamas para lhe pedir perdão e introduzi-lo no seu corpo uma última vez, deixando o fogo derreter a carne até se tornarem um só, para sempre. Conseguia sentir o cheiro de carne queimada, em nada diferente da carne de cavalo assando numa fogueira. A pira rugia no crepúsculo que se aprofundava como um grande animal, afogando o som mais fraco dos gritos de Mirri Maz Duur e projetando longas línguas de fogo para lamber a barriga da noite. Quando a fumaça se tornou mais espessa, os dothrakis se afastaram, tossindo.
Grandes gotas de fogo cor de laranja desenrolaram seus estandartes naquele vento infernal, com as toras silvando e estalando, e fagulhas brilhantes erguendo-se na fumaça e afastando-se, flutuando como outros tantos vaga-lumes recém-nascidos. O calor batia o ar com grandes asas vermelhas, afastando os dothrakis, afastando até Mormont, mas Dany ficou no seu lugar.
Era do sangue do dragão, e tinha o fogo em si. Sentira a verdade havia muito, pensou Dany quando deu um passo para mais perto do incêndio, mas o braseiro nunca estivera suficientemente quente. As chamas contorciam-se à sua frente como as mulheres que dançaram no seu casamento, rodopiando, cantando e fazendo girar seus véus amarelos, laranja e carmins, terríveis de admirar, mas ao mesmo tempo adoráveis, tão adoráveis, vivas de calor. Dany abriu os braços, com a pele corada e brilhando. Isto também é um casamento, pensou. Mirri Maz Duur caíra no silêncio. A esposa de deus a julgara uma criança, mas as crianças crescem, e aprendem.
Outro passo, e Dany sentiu o calor da areia nas solas dos pés, apesar das sandálias. Suor escorreu-lhe pelas coxas, por entre os seios e em regatos pelas bochechas, onde antes tinham corrido lágrimas. Sor Jorah gritava atrás dela, mas eleja não importava, somente o fogo. As chamas eram tão belas, as coisas mais lindas que jamais vira antes, cada uma delas uma feiticeira vestida de amarelo, laranja e escarlate, fazendo rodopiar longos mantos fumarentos. Viu leões de fogo carmesins e grandes serpentes amarelas e unicórnios feitos de chamas azul-claras; viu peixes e raposas e monstros, lobos e aves brilhantes e árvores floridas, cada uma mais bela que a anterior. Viu um cavalo, um grande garanhão cinzento retratado na fumaça, com uma auréola de chama azul no lugar da crina. Sim, meu amor, meu sol-e-estrelas, sim, monte agora, cavalgue agora.
Seu colete começara a pegar fogo, e Dany o tirou e deixou cair ao chão. O couro pintado rebentou em súbitas chamas quando deu um pequeno salto para mais perto do fogo, com os seios nus perante as chamas, córregos de leite a jorrar dos mamilos vermelhos e inchados. Agora, pensou, agora, e por um instante vislumbrou Khal Drogo à sua frente, montado em seu garanhão de fumaça, com um chicote de fogo na mão.
Ele sorriu, e o chicote serpenteou para a pira, silvando. Ouviu um crac, o som de pedra que se quebra. A plataforma de árvores, arbustos e mato começou a deslocar-se e a colapsar sobre si mesma. Pedaços de madeira ardendo deslizaram até junto dela, e Dany foi salpicada por cinzas e fagulhas. E algo mais caiu, saltando e rolando, parando a seus pés; um pedaço de rocha curva, de cor clara e com veios de ouro, quebrada e fumegante. O rugido enchia o mundo, mas, de um modo tênue, Dany ouviu através da catarata de fogo gritos de mulheres e choros de crianças, incrédulas. Só a morte pode pagar pela vida.
E então se ouviu um segundo crac, tão sonoro e cortante como um trovão, e a fumaça agitou-se e rodopiou em torno dela e a pira oscilou, com as toras explodindo quando o fogo atingiu os seus corações secretos. Ouviu os gritos de cavalos assustados e as vozes dos dothrakis em gritos de medo e terror, e Sor Jorah chamando pelo seu nome e praguejando. Não, quis gritar, não, meu bom cavaleiro, não tema por mim. O fogo é meu. Sou Daenerys, nascida na Tempestade, filha de dragões, noiva de dragões, mãe de dragões, não vê? Não vê?
Com um vômito de chamas e fumaça que subiu a nove metros de altura, a pira ruiu e caiu à sua volta. Sem medo, Dany deu um passo para a tempestade de fogo, chamando pelos seus filhos.
O terceiro crac foi tão sonoro e cortante como se o mundo se rasgasse. Quando o fogo enfim morreu e o chão ficou suficientemente frio para poder ser atravessado, Sor Jorah Mormont encontrou-a entre as cinzas, rodeada por toras enegrecidas, fagulhas de brasas incandescentes e os ossos queimados de homem, mulher e garanhão. Estava nua, coberta de fuligem, com as roupas transformadas em cinzas, os belos cabelos torrados até desaparecer... mas incólume.
O dragão creme e dourado chupava-lhe o seio esquerdo, o verde e cor de bronze, o direito. Os braços dela os embalavam bem perto. O animal negro e escarlate envolvia-lhe os ombros, com o longo pescoço sinuoso enrolado sob seu queixo. Quando viu Jorah, ergueu a cabeça e o encarou com olhos vermelhos como brasas.
Sem palavras, o cavaleiro caiu de joelhos. Os homens do seu khas vieram atrás dele. Jhogo foi o primeiro a depositar o arakh a seus pés.
- Sangue do meu sangue - murmurou, inclinando o rosto à terra fumegante.
- Sangue do meu sangue - ouviu Aggo repetir num eco.
- Sangue do meu sangue - gritou Rakharo.
E depois dele vieram as aias, e depois os outros, todos os dothrakis, homens, mulheres e crianças, e Dany não teve mais que olhar para os seus olhos para saber que eram seus agora, hoje, amanhã e para sempre, seus como nunca tinham sido de Drogo.
Quando Daenerys Targaryen se pôs em pé, seu dragão negro silvou, com fumaça clara saindo da boca e das narinas. Os outros dois afastaram-se dos seios e somaram suas vozes ao chamamento, com asas translúcidas abrindo-se e agitando o ar, e pela primeira vez em centenas de anos a noite ganhou vida com a música dos dragões.  

71 - CATELYN


Parecia terem se passado mil anos desde que Catelyn Stark levara o filho bebê de Correrrio, atravessando o Pedregoso num pequeno barco para dar início à viagem para o norte até Winterfell. E era pelo Pedregoso que regressavam agora para casa, embora o rapaz vestisse armadura e cota de malha em vez de cueiros.
Robb estava sentado à proa com Vento Cinzento, descansando a mão na cabeça do lobo gigante enquanto os remadores puxavam os remos. Theon Greyjoy encontrava-se com ele. O tio Brynden vinha depois no segundo barco, com Grande-Jon e Lorde Karstark.
Catelyn ocupou um lugar perto da popa. Correram pelo Pedregoso, deixando a forte corrente empurrá-los para lá da Torre da Roda. O trovejar da grande roda de água que havia lá dentro era um som de infância que trouxe um sorriso triste ao rosto de Catelyn. Das muralhas de arenito do castelo, soldados e criados gritavam o nome dela, e o de Robb, e "Winterfell!". Em todos os baluartes esvoaçava o estandarte da Casa Tully: uma truta saltante, de prata, em fundo ondulado de azul e vermelho. Era uma visão estimulante; no entanto, não lhe alegrava o coração. Gostaria de saber se o coração voltaria a alegrar-se algum dia. Ah, Ned...
Abaixo da Torre da Roda descreveram uma curva larga e cortaram as águas agitadas. Os homens puseram os ombros no esforço. O arco largo do Portão da Água surgiu à vista, e Catelyn ouviu o tinir de pesadas correntes quando a grande porta levadiça de ferro foi içada. Ergueu-se lentamente enquanto se aproximavam, e Catelyn viu que a parte de baixo estava vermelha de ferrugem. Os trinta centímetros inferiores pingaram lama sobre eles quando passaram por baixo, com as pontas farpadas a meros centímetros de suas cabeças.
Catelyn ergueu o olhar para as barras e se perguntou até que profundidade iria a ferrugem, como aguentaria a porta levadiça um aríete e se deveria ser substituída. Nos dias que corriam, era raro que pensamentos como aquele andassem longe de sua mente.
Passaram sob o arco e as muralhas, saindo do sol para a sombra e de novo para o sol. Havia barcos, grandes e pequenos, amarrados em toda a volta, presos a anéis de ferro incrustados na pedra. Os guardas do pai esperavam com o irmão na escada da água. Sor Edmure Tully era um jovem troncudo, de cabelos ruivos desgrenhados e barba cor de fogo. Sua placa de peito tinha arranhões e deformações de batalha, e o manto azul e vermelho estava manchado de sangue e de fumaça. Tinha ao lado Lorde Tytos Blackwood, um homem duro e espigado, de suíças cinzentas cortadas rente e nariz adunco. Sua armadura, de um amarelo vivo, era incrustada de azeviche em elaborados padrões que lembravam trepadeiras e folhas, e um manto feito de penas de corvo envolvia os ombros magros. Fora Lorde Tytos quem liderara a investida que arrancara o irmão de Catelyn do acampamento Lannister.
- Traga-os - ordenou Sor Edmure. Três homens precipitaram-se pelas escadas, entraram na água até os joelhos e puxaram o barco para perto com longos ganchos. Quando Vento Cinzento saltou para a terra, um deles deixou cair o cabo e cambaleou para trás, tropeçando e sentando-se abruptamente no rio. Os outros riram, e o homem ficou com expressão envergonhada.
Theon Greyjoy saltou por cima da borda do barco e ergueu Catelyn pela cintura, pousando-a num degrau seco acima dele enquanto a água lhe batia nas botas.
Edmure desceu os degraus para abraçá-la.
- Querida irmã - murmurou com voz rouca. Possuía profundos olhos azuis e uma boca feita para sorrisos, mas agora não sorria. Parecia desgastado e cansado, consumido pela batalha e macilento de tensão. Tinha um curativo no pescoço, no local onde fora ferido. Catelyn o abraçou com toda a força.
- Sua dor é minha, Cat - disse quando se separaram. - Quando soubemos o que aconteceu a Lorde Eddard... os Lannister pagarão, juro, terá a sua vingança.
- Isso me trará Ned de volta? - ela disse em tom cortante. A ferida ainda era demasiado recente para palavras mais suaves. Agora não conseguia pensar em Ned. Não queria. Não seria bom. Tinha de ser forte. - Tudo isso pode esperar. Tenho de ver meu pai.
- Ele a espera em seu aposento privado - disse Edmure.
- Lorde Hoster está acamado, senhora - explicou o intendente do pai. Quando ficara aquele bom homem tão grisalho? - Deu-me instruções para levá-la até ele imediatamente.
- Eu a levo - Edmure a acompanhou pela escada da água e pela muralha inferior, onde Petyr Baelish e Brandon Stark tinham no passado cruzado espadas pela sua estima. As maciças muralhas de arenito da fortaleza erguiam-se ao redor. Ao atravessarem uma porta, entre dois guardas com elmos encimados por peixes, ela perguntou:
- Como está ele? - já temendo a resposta enquanto pronunciava as palavras.
O olhar de Edmure era melancólico.
- Os meistres dizem que não ficará conosco muito tempo. A dor é... constante, e atroz.
Uma raiva cega a devastou, uma raiva contra o mundo inteiro, contra o irmão Edmure e a irmã Lysa, contra os Lannister, contra os meistres, contra Ned e contra o pai e contra os deuses monstruosos que queriam lhe roubar os dois.
- Devia ter me contado - disse. - Devia ter enviado uma mensagem assim que soube.
- Ele nos proibiu. Não queria que os inimigos soubessem que estava morrendo. Com o reino tão perturbado, temeu que, se os Lannister soubessem como estava frágil...
- ... pudessem atacar? - terminou Catelyn, dura. Foi obra sua, sua, sussurrou uma voz dentro dela. Se não tivesse decidido capturar o anão...
Subiram em silêncio a escada em espiral.
A fortaleza tinha três lados, como o próprio Correrrio, e o aposento privado de Lorde Hoster era também triangular, com uma varanda de pedra que se projetava ao leste como se fosse a proa de um grande navio de arenito. Dali, o senhor do castelo podia olhar de cima para as suas muralhas e ameias, e para lá delas, para onde as águas se encontravam. Tinham posto a cama do pai na varanda.
- Ele gosta de ficar ao sol, observando os rios - explicou Edmure. - Pai, olhe quem eu trouxe. Cat veio vê-lo...
Hoster Tully sempre fora um homem grande, alto e largo na juventude, corpulento quando envelheceu. Agora parecia encolhido, com o músculo e a carne arrancados dos ossos. Até o rosto cedera. Da última vez que Catelyn o vira, os cabelos e a barba eram castanhos, profusamente grisalhos. Agora tinham se tornado brancos como a neve. Os olhos dele se abriram ao som da voz de Edmure.
- Gatinha - murmurou numa voz fraca e fina, arruinada pela dor. - Minha gatinha - um sorriso trêmulo tocou-lhe o rosto enquanto a mão procurava a dela às apalpadelas.
- Fiquei à sua espera...
- Vou deixados conversar - disse o irmão, beijando suavemente o senhor seu pai na testa antes de se retirar.
Catelyn ajoelhou e tomou a mão do pai nas suas. Era uma mão grande, mas estava agora sem carne, com os ossos movendo-se soltos sob a pele, desaparecida toda a sua força.
- Devia ter me contado - disse ela. - Um mensageiro, um corvo...
- Os mensageiros são capturados e interrogados - ele respondeu. - Os corvos são abatidos... - foi tomado por um espasmo de dor, e os dedos apertaram os dela com força. - Tenho caranguejos na barriga... mordendo, sempre mordendo. Dia e noite. Têm garras duras, os caranguejos. Meistre Vyman faz-me vinho de sonhos, leite da papoula... durmo muito... Mas quis estar acordado para vê-la, quando chegasse. Tive medo... Quando os Lannister capturaram seu irmão, com os acampamentos a toda a volta... tive medo de partir antes de poder voltar a vê-la... tive medo...
- Estou aqui, pai - ela disse. - Com Robb, o meu filho. Ele também virá vê-lo.
- O seu rapaz - ele sussurrou. - Se bem me lembro, ele tinha os meus olhos...
- Tinha e ainda tem. E trouxemos Jaime Lannister a ferros. Correrrio está de novo livre, pai.
Lorde Holster sorriu.
- Eu vi. Ontem à noite, quando começou, eu lhes disse ... tinha de ver. Levaram-me para a guarita... Observei das ameias. Ah, foi uma beleza... os archotes chegaram numa onda, conseguia ouvir os gritos que pairavam sobre o rio... doces gritos... Quando aquela torre de cerco pegou fogo, deuses... teria morrido então, e contente, se pudesse tê-la visto primeiro, criança. Foi o seu rapaz que assim fez? Foi o seu Robb?
- Sim - disse Catelyn, imensamente orgulhosa. - Foi Robb... e Brynden. Seu irmão também está aqui, senhor.
- Ele - a voz do pai era um tênue sussurro. - O Peixe Negro... regressou? Do Vale?
- Sim.
- E Lysa? - um vento frio moveu-se através de seus finos cabelos brancos. - Que os deuses sejam bondosos, a sua irmã... ela também veio?
A voz dele estava tão cheia de esperança e desejo que foi duro dizer-lhe a verdade.
- Não. Lamento...
- Ah - o rosto descaiu, e alguma luz desapareceu dos olhos. - Tive esperança... teria gostado devê-la, antes de...
- Ela está com o filho, no Ninho da Águia.
Lorde Hoster fez um aceno cansado.
- Agora Lorde Robert, com o pobre Arryn falecido... eu me lembro... Por que é que ela não veio com você?
- Está assustada, senhor. No Ninho da Águia sente-se segura - beijou a testa enrugada do pai. - Robb deve estar à espera. Quer vê-lo? E Brynden?
- O seu filho - segredou ele. - Sim. O filho de Cat. Lembro-me que ele tinha os meus olhos. Quando
nasceu. Traga-o... sim.
- E seu irmão?
O pai olhou de relance para os rios.
- Peixe Negro - disse. - Já se casou? Tomou alguma... mulher como esposa?
Até no leito de morte, pensou Catelyn com tristeza.
- Ele não se casou. Sabe disso, pai. Nem nunca casará.
- Eu lhe disse... ordenei. Casa! Era o seu senhor. Ele sabe. Era meu direito, arranjar-lhe um partido. Um bom partido. Uma Redwyne. Casa antiga. Uma doce jovem, bonita... sardas... Bethany, sim. Pobre criança. Ainda espera. Sim. Ainda...
- Bethany Redwyne casou há anos com Lorde Rowan - lembrou-lhe Catelyn. - Tem três filhos dele.
- Mesmo assim - resmungou Lorde Hoster. - Mesmo assim. Cuspiu na moça. Nos Redwyne. Cuspiu em mim. O seu senhor, seu irmão... esse Peixe Negro. Tinha outras ofertas. A filha de Lorde Bracken. Walder Frey... qualquer uma das três, disse ele... Casou? Com alguém? Alguém?
- Ninguém - disse Catelyn. - Mas percorreu muitas léguas para vê-lo, abrindo caminho, lutando até Correrio. Eu não estaria aqui agora se Sor Brynden não nos tivesse ajudado.
- Ele sempre foi um guerreiro - sussurrou o pai. - Isso podia fazer. Cavaleiro do Portão, sim - reclinou-se e fechou os olhos, extremamente fatigado. - Mande-o vir. Mais tarde. Agora quero dormir. Estou muito doente para discutir. Mande-o vir aqui mais tarde, o Peixe Negro...
Catelyn deu-lhe um beijo suave, alisou-lhe o cabelo e deixou-o ali, à sombra da sua fortaleza, com os seus rios a correr embaixo. Adormecera antes ainda de ela sair do aposento.
Quando voltou à muralha inferior, Sor Brynden Tully encontrava-se na escada da água com as botas molhadas, conversando com o capitão dos guardas de Correrrio. Foi imediatamente ao seu encontro.
- Ele está...?
- Morrendo - disse ela. - Como temíamos.
O rosto escarpado do tio mostrou claramente a dor que sentia. Fez correr os dedos pelos espessos cabelos grisalhos.
- Vai me receber?
Ela confirmou com a cabeça.
- Diz que está muito doente para discutir.
Brynden Peixe Negro soltou um risinho.
- Sou um soldado velho demais para acreditar nisso. Hoster há de ralhar comigo a respeito da jovem Redwyne até quando acendermos a sua pira funerária, malditos sejam os seus ossos.
Catelyn sorriu, sabendo que aquilo era verdade.
- Não vejo Robb.
- Acho que foi com Greyjoy até o salão.
Theon Greyjoy estava sentado num banco no Salão Grande de Correrrio, saboreando um corno de cerveja e oferecendo à guarnição do pai de Catelyn um relato do massacre no Bosque dos Murmúrios.
- Alguns tentaram fugir, mas nós tínhamos fechado o vale pelos dois lados, e saltamos da escuridão com espadas e lanças. Os Lannister deviam ter pensado que eram os Outros quem os atacava quando aquele lobo do Robb surgiu entre eles. Vi-o arrancar o braço de um homem, e os cavalos deles enlouqueceram com o seu cheiro. Não sei dizer quantos homens foram atirados...
- Theon - interrompeu Catelyn - onde posso encontrar meu filho?
- Lorde Robb foi visitar o bosque sagrado, senhora.
Era o que Ned teria feito. Tenho de me lembrar que ele é tanto filho do seu pai como meu. Ah, deuses, Ned... Encontrou Robb sob a verde abóbada de folhas, rodeado de altas sequoias e grandes e velhos olmos, ajoelhado perante a árvore-coração, um esguio represeiro com uma cara que era mais triste que feroz. Tinha a espada à sua frente, com a ponta espetada na terra, e as mãos enluvadas a agarravam pelo punho. Ao seu redor, ajoelhavam-se também: Grande-Jon Umber, Rickard Karstark, Maege Mormont, Galbart Glover e outros. Até Tytos Blackwood se encontrava entre eles, com o grande manto de corvo aberto atrás de si. Estes são os que fazem culto aos velhos deuses, percebeu Catelyn. Perguntou-se que deuses ela cultuava nos dias que corriam, e não encontrou resposta.
Não podia perturbá-los nas suas preces. Os deuses têm de receber o que lhes é devido... mesmo deuses cruéis que quiseram lhe roubar Ned e também o senhor seu pai. Por isso, Catelyn esperou. O vento do rio soprava através dos ramos mais altos, e olhou para a Torre da Roda, à sua direita, com hera subindo pela parede. Enquanto esperava, foi inundada por todas as memórias, O pai lhe ensinara a montar entre aquelas árvores, e aquele era o olmo de onde Edmure caíra quando quebrara o braço, e mais adiante, sob aquele caramanchão, Lysa e ela tinham brincado aos beijos com Petyr.
Havia anos que não pensava naquilo. Como eram todos novos então... ela não seria mais velha que Sansa, Lysa, mais nova que Arya, e Petyr, ainda mais novo, mas ávido. As meninas tinham-no trocado entre elas, por vezes sérias, por vezes aos risinhos. A recordação era tão viva que quase conseguia sentir os dedos suados dele nos seus ombros e saborear a menta de seu hálito. Havia sempre menta crescendo no bosque sagrado, e Petyr gostava de mascá-la. Fora um rapazinho tão ousado, sempre metido em confusões. "Ele tentou enfiar a língua na minha boca", confessara Catelyn à irmã mais tarde, quando ficaram a sós. "Fez o mesmo comigo", segredara Lysa, tímida e sem fôlego. "Eu gostei."
Robb pôs-se lentamente em pé e embainhou a espada, e Catelyn perguntou-se se o filho teria alguma vez beijado uma moça no bosque sagrado. Certamente que sim. Vira Jeyne Poole lançar-lhe olhares úmidos, e algumas das criadas, mesmo as que já tinham feito dezoito anos... Ele participara de batalhas e matara homens com uma espada, com certeza já fora beijado. Havia lágrimas nos olhos dela. Limpou-as, zangada.
- Mãe - chamou Robb quando a viu ali em pé. - Temos de convocar um conselho. Há coisas para decidir.
- Seu avô gostaria de vê-lo - ela disse. - Robb, ele está muito doente.
- Sor Edmure me disse. Lamento, mãe... por Lorde Hoster e pela senhora. Mas primeiro temos de nos reunir. Recebemos notícias do sul. Renly Baratheon reivindicou o trono do irmão.
- Renly? - ela disse, chocada. - Pensei que seria certamente Lorde Stannis...
- Todos nós pensávamos o mesmo, senhora - disse Galbart Glover,
O conselho de guerra reuniu-se no Grande Salão, em quatro longas mesas de montar dispostas num quadrado quebrado. Lorde Hoster estava muito fraco para participar e dormia em sua varanda, sonhando com o sol nos rios de sua juventude. Edmure ocupava o cadeirão dos Tully, com Brynden Peixe Negro a seu lado e os vassalos do pai dispostos à esquerda e à direita e ao longo das mesas laterais. A notícia da vitória em Correrrio chegara aos senhores fugitivos do Tridente, atraindo-os de volta. Karyl Vance entrou, agora um lorde, com o pai morto sob o Dente Dourado. Sor Marq Piper estava com ele, e trouxeram um Darry, filho de Sor Raymun, um rapaz que não era mais velho que Bran. Lorde Jonos Bracken chegou das ruínas da Barreira de Pedra, carrancudo e fanfarrão, e ocupou um lugar tão afastado de Tytos Blackwood quanto as mesas permitiam.
Os senhores do Norte sentaram-se do lado oposto, com Catelyn e Robb em frente ao irmão dela. Eram menos. Grande-Jon sentou-se à esquerda de Robb, e em seguida Theon Greyjoy; Galbart Glover e a Senhora Mormont estavam à direita de Catelyn. Lorde Rickard Karstark, desolado e de olhos vazios na sua dor, ocupou seu lugar como um homem perdido num pesadelo, com a longa barba por lavar e pentear. Deixara dois filhos mortos no Bosque dos Murmúrios e não havia notícias do terceiro, o mais velho, que liderara os lanceiros Karstark contra Tywin Lannister no Ramo Verde.
A discussão prolongou-se noite dentro. Cada senhor tinha direito a falar, e foi o que fizeram... e também gritaram, e praguejaram, e argumentaram, e lisonjearam, e brincaram, e regatearam, e bateram na mesa com canecas de cerveja, e ameaçaram, e saíram, e regressaram, mal-humorados ou sorrindo. Catelyn permaneceu sentada ouvindo tudo.
Roose Bolton tinha reunido os restos de sua maltratada tropa no início do talude. Sor Heiman Tallhart e Walder Frey ainda mantinham as Gêmeas, o exército de Lorde Tywin atravessara o Tridente e dirigia-se para Harrenhal. E havia dois reis no reino. Dois reis e nenhum acordo.
Muitos dos senhores vassalos queriam marchar sobre Harrenhal de imediato, a fim de defrontar Lorde Tywin e terminar com o poderio dos Lannister de uma vez por todas. O jovem e temperamental Marq Piper sugeria, em vez disso, um ataque a oeste contra Rochedo Casterly. Outros ainda aconselhavam paciência. Correrrio estava atravessado nas linhas de abastecimento dos Lannister, fez notar Jason Mallister; que aguardassem o tempo certo, negando a Lorde Tywin provisões e soldados frescos, enquanto iam fortalecendo as defesas e descansando as tropas fatigadas. Lorde Blackwood não queria ouvir falar daquilo. Deveriam terminar o trabalho que tinham começado no Bosque dos Murmúrios. Marchar contra Harrenhal e trazer também para baixo o exército de Roose Bolton. Àquilo que Blackwood sugeria, Bracken opunha-se, como sempre; Lorde Jonos Bracken pôs-se em pé a fim de insistir que deviam declarar lealdade ao Rei Renly e ir para o sul juntar as suas forças às dele.
- Renly não é o rei - disse Robb. Era a primeira vez que o filho de Catelyn falava. Tal como o pai, sabia ouvir.
- Não pode pretender aderir a Joffrey, senhor - disse Galbart Glover. - Ele ordenou a morte de seu pai.
- Isso faz dele um mal - respondeu Robb. - Não sei se faz de Renly rei. Joffrey ainda é o filho legítimo mais velho de Robert, por isso o trono é dele segundo todas as leis do reino. Se ele morresse, e pretendo fazer com que morra, tem um irmão mais novo. Tommen segue na linha de sucessão a Joffrey.
- Tommen não é menos Lannister que o irmão - exclamou Sor Marq Piper.
- E como diz - disse Robb, perturbado. - Mas, mesmo assim, se nenhum deles for rei, como pode Lorde Renly sê-lo? Ele é o irmão mais novo de Robert. Bran não pode ser Senhor de Winterfell antes de mim, e Renly não pode ser rei antes de Lorde Stannis.
A Senhora Mormont concordou.
- Lorde Stannis tem a melhor pretensão.
- Renly foi coroado - disse Marq Piper - Jardim de Cima e Ponta Tempestade apoiam sua pretensão, e os de Dorne não ficarão atrás. Se Winterfell e Correrrio acrescentarem suas forças às dele, teremos cinco das sete grandes casas atrás dele. Seis, se os Arryn se moverem! Seis contra o Rochedo! Senhores, dentro de um ano teremos todas as suas cabeças em lanças, a rainha e o rei rapaz, Lorde Tywin, o Duende, o Regicida, Sor Kevan, todos! Será isto que ganharemos se nos juntarmos ao Rei Renly. Que tem Lorde Stannis contra isso para que ponhamos tudo de lado?
- O direito - disse teimosamente Robb, Catelyn achou que o filho soara estranhamente como o pai,
- Tem então tenção de nos declarar por Stannis? - perguntou Edmure.
- Não sei - disse Robb. - Rezei para saber o que fazer, mas os deuses não responderam. Os Lannister mataram meu pai por traição, e sabemos que isso foi uma mentira, mas se Joffrey for o rei de direito e lutarmos contra ele, nós seremos traidores.
- O senhor meu pai aconselharia cautela - disse o idoso Sor Stevron, com o sorriso de fuinha de um Frey. - Esperem, deixem que esses dois reis joguem o seu jogo de tronos. Quando terminarem de lutar, podemos dobrar os joelhos ao vencedor, ou podemos nos opor a ele, conforme seja a nossa escolha. Com Renly armando-se, é provável que Lorde Tywin acolha bem uma trégua... e a devolução em bom estado de seu filho. Nobres senhores, permitam-me que vá conferenciar com ele em Harrenhal e nos arranje bons termos e resgates...
Um rugido de afronta afogou a sua voz.
- Covarde! - trovejou Grande-Jon.
- Suplicar por uma trégua só fará com que pareçamos fracos - declarou a Senhora Mormont.
- Que se danem os resgates, não devemos abdicar do Regicida - gritou Rickard Karstark.
- Por que não fazer a paz? - perguntou Catelyn.
Os senhores olharam-na, mas foram os olhos de Robb que sentiu, os dele, e apenas os dele.
- Senhora, eles assassinaram o senhor meu pai, seu esposo - disse ele em tom sombrio. Desembainhou a espada e pousou-a na mesa à sua frente, fazendo cintilar o aço brilhante contra a madeira rústica. - Esta é a única paz que eu tenho a dar aos Lannister.
Grande-Jon berrou a sua concordância, e outros homens acrescentaram suas vozes, gritando, desembainhando espadas e batendo na mesa com os punhos. Catelyn esperou até que se calassem.
- Senhores - disse ela então - Lorde Eddard era seu suserano, mas eu partilhei sua cama e dei à luz os seus filhos. Julgam que o amo menos que os senhores? - sua voz quase se quebrou, mas Catelyn inspirou longamente e sossegou. - Robb, se esta espada pudesse trazê-lo de volta, eu nunca deixaria que a embainhasse até que Ned estivesse de novo ao meu lado... Mas ele partiu, e uma centena de Bosques dos Murmúrios não mudarão isso. Ned partiu, tal como Daryn Hornwood, tal como os valentes filhos de Lorde Karstark, tal como muitos outros bons homens, e nenhum deles regressará para nós. Precisaremos ainda de mais mortes?
- É uma mulher, senhora - estrondeou Grande-Jon com sua voz grave - As mulheres não compreendem estas coisas.
- É o sexo gentil - disse Lorde Karstark, com rugas de dor frescas no rosto. - Um homem tem necessidade de vingança.
- Dê-me Cersei Lannister, Lorde Karstark, e verá quão gentil uma mulher pode ser - respondeu Catelyn. - Eu talvez não compreenda as táticas e a estratégia... mas compreendo a futilidade. Partimos para a guerra quando os exércitos Lannister assolavam as terras do rio, e Ned era um prisioneiro, falsamente acusado de traição. Lutamos para nos defender e para conquistar a liberdade do meu senhor. Pois bem, uma parte está feita, e a outra, para sempre além do nosso alcance. Farei luto por Ned até o fim dos meus dias, mas tenho de pensar nos vivos. Quero as minhas filhas de volta, e a rainha ainda as tem. Se tiver de trocar os nossos quatro Lannister pelas duas Stark deles, chamarei a isso uma pechincha e darei graças aos deuses. Quero-o a salvo, Robb, governando em Winterfell do assento do seu pai. Quero que desfrute sua vida, que beije uma moça, case com uma mulher e gere um filho. Quero pôr fim a isto. Quero ir para casa, senhores, e chorar pelo meu esposo.
O salão ficou muito silencioso quando Catelyn parou de falar.
- Paz - disse o tio Brynden. - A paz é doce, minha senhora... mas em que termos? De nada serve forjar um arado a partir de uma espada se for necessário forjar de novo a espada no dia seguinte.
- Para que morreram Torrhen e o meu Eddard, se tiver de regressar a Karhold sem nada a não ser os seus ossos? - perguntou Rickard Karstark.
- Sim - disse Lorde Bracken, - Gregor Clegane arrasou meus campos, massacrou meu povo e transformou Barreira de Pedra em uma ruína fumegante. Deverei agora dobrar o joelho àqueles que lhe deram as ordens? Para que lutamos, se pusermos tudo como era antes?
Lorde Blackwood concordou, para surpresa e desânimo de Catelyn.
- E se fizéssemos a paz com o Rei Joffrey, não seríamos então traidores para o Rei Renly? E se o veado vencer o leão, em que situação ficaremos?
- Seja o que for que decidirem, nunca chamarei um Lannister de rei - declarou Marq Piper.
- Nem eu! - gritou o pequeno Derry. - Nunca o farei!
De novo começaram os gritos. Catelyn sentou-se, desesperada. Estivera tão perto, pensou. Tinham quase escutado, quase,., mas o momento passara. Não haveria paz, não haveria possibilidade de sarar, não haveria segurança. Olhou para o filho, observou-o enquanto escutava o debate dos senhores, de sobrancelha franzida, perturbado, mas casado com a sua guerra. Tinha prometido desposar uma filha de Walder Frey, mas agora Catelyn via claramente a sua esposa: a espada que pousara na mesa.
Catelyn estava pensando nas filhas, perguntando-se se alguma vez voltaria a vê-las, quando Grande-Jon se pôs em pé de um salto.
- Senhores! - gritou, fazendo a voz reverberar nas traves. - Eis o que eu digo a esses dois reis! - cuspiu. - Renly Baratheon não é nada para mim, e Stannis também não. Por que haveriam de governar a mim e aos meus de uma cadeira florida qualquer em Jardim de Cima ou Dorne? Que sabem eles da Muralha ou da Mata de Lobos, ou das sepulturas dos Primeiros Homens? Até os seus deuses estão errados. Que os Outros levem também os Lannister, já tive deles mais do que a minha conta - esticou a mão atrás do ombro e puxou a sua imensa espada longa de duas mãos. - Por que não havemos de nos governar de novo a nós próprios? Foi com os dragões que casamos, e os dragões estão todos mortos! - apontou com a lâmina para Robb. - Está ali o único rei perante o qual pretendo vergar o meu joelho, senhores - trovejou. - O Rei do Norte!
Ajoelhou-se, e depositou a espada aos pés do filho de Catelyn.
- Aceitarei a paz nesses termos - disse Lorde Karstark. - Podem ficar com o seu castelo vermelho e com a sua cadeira de ferro também - tirou a espada da bainha. - O Rei do Norte! - disse, ajoelhando-se ao lado de Grande-Jon.
Maege Mormont pôs-se em pé.
- O Rei do Inverno! - declarou, e pousou sua maça de espigões ao lado das espadas.
E os senhores do rio também estavam se erguendo, Blackwood, Bracken e Mallister, casas que nunca tinham sido governadas por Winterfell, mas Catelyn viu-os erguer-se e puxar as lâminas, vergando os joelhos e gritando as velhas palavras que não eram ouvidas no reino havia mais de trezentos anos, desde que Aegon, o Dragão, chegara para fazer dos Sete Reinos um só... mas agora eram ouvidas de novo, ressoando no madeirame do salão de seu pai:
- O Rei do Norte!
- O Rei do Norte!
- O Rei do Norte!

70 - JON


A égua relinchou baixinho quando Jon apertou a cilha.
- Calma, querida senhora - disse ele em voz suave, acalmando-a com um afago. O vento sussurrava no estábulo, uma fria respiração de morte no seu rosto, mas Jon não lhe prestou atenção. Atou o rolo à sela, sentindo os dedos cheios de cicatrizes rígidos e desastrados. - Fantasma - chamou, em voz baixa - aqui - e o lobo ali estava, com olhos que eram como brasas.
-Jon, por favor. Não pode fazer isto.
Ele montou, com as rédeas na mão, e fez o cavalo girar para a noite. Samwell Tarly estava à porta do estábulo, com a lua cheia espreitando-lhe sobre o ombro. Gerava uma sombra de gigante, imensa e negra.
- Sai da minha frente, Sam.
-Jon, não pode - disse Sam. - Não vou deixar que faça isso.
- Eu preferia não machucá-lo - disse-lhe Jon. - Afaste-se, Sam, ou o atropelo.
- Não fará. Precisa me ouvir. Por favor...
Jon enterrou as esporas na carne da égua, que saltou para a porta. Por um instante Sam manteve-se imóvel, com o rosto tão redondo e pálido como a lua que tinha atrás, a boca transformada num O de surpresa que se alargava. No último momento, quando já estavam quase sobre ele, saltou para o lado como Jon soubera que faria, tropeçou e caiu. A égua saltou sobre ele, penetrando na noite.
Jon subiu o capuz de seu pesado manto e deixou as rédeas soltas. Castelo Negro encontrava-se silencioso e imóvel quando cavalgou para o exterior, com Fantasma correndo a seu lado. Sabia que havia homens observando na muralha atrás de si, mas os olhos deles estavam virados para o norte, não para o sul. Ninguém o veria partir, ninguém além de Sam Tarly, que lutava para se pôr de pé na poeira dos velhos estábulos. Esperava que Sam não tivesse se machucado ao cair daquela maneira.
Era tão pesado e desajeitado que seria mesmo coisa de Sam quebrar o pulso ou torcer o tornozelo ao sair do caminho.
- Eu o preveni - disse Jon em voz alta. - De qualquer forma, isto não tinha nada a ver com ele - flexionou a mão queimada enquanto cavalgava, abrindo e fechando os dedos cheios de cicatrizes. Ainda lhe doíam, mas era bom não ter as ataduras.
O luar prateava os montes enquanto ele seguia a fita retorcida da estrada real. Precisava se afastar o máximo possível da Muralha antes que percebessem que desaparecera. De manhã deixaria a estrada e avançaria por campos, florestas e córregos a fim de despistar os perseguidores, mas no momento a velocidade era mais importante que a dissimulação. Afinal, não era como se eles não adivinhassem para onde se dirigia.
O Velho Urso estava habituado a se levantar à primeira luz da aurora, portanto, Jon tinha até essa hora para pôr tantas léguas quantas pudesse entre si e a Muralha, se Sam Tarly não o traísse. O gordo rapaz era obediente e fácil de assustar, mas amava Jon como a um irmão. Se fosse interrogado, não havia dúvida de que Sam lhes diria a verdade, mas Jon não o imaginava desafiando os guardas à porta da Torre do Rei para acordar Mormont. Quando Jon não aparecesse na cozinha para ir buscar o café da manhã do Velho Urso, procurariam na sua cela e encontrariam Garralonga sobre a cama. Tinha sido duro abandoná-la, mas Jon não estava suficientemente despido de honra para levá-la consigo. Nem mesmo Jorah Mormont o fizera quando fugira em desgraça. Sem dúvida que Lorde Mormont encontraria alguém mais merecedor daquela lâmina. Jon sentia-se mal ao pensar no velho. Sabia que sua deserção seria como sal na ferida, ainda em carne viva, da desgraça do filho.
Parecia uma pobre maneira de lhe pagar pela confiança, mas nada havia a fazer. Fizesse o que fizesse, Jon sentia-se como se estivesse traindo alguém. Nem mesmo agora sabia se estava fazendo a coisa honrosa. Os sulistas tinham a vida mais facilitada. Tinham seus septões com quem falar, alguém para lhes desvendar a vontade dos deuses e os ajudar a distinguir o bem do mal. Mas os Stark adoravam os velhos deuses, os deuses sem nome, e se as árvores-coração ouviam, não falavam.
Quando as últimas luzes de Castelo Negro desapareceram atrás dele, Jon refreou a égua, pondo-a a trote. Tinha uma longa viagem à sua frente e só aquele cavalo para transportá-lo. Havia fortificações e aldeias de agricultores ao longo do caminho ao sul, onde conseguiria trocar a égua por uma montaria descansada quando precisasse de uma, mas não se estivesse ferida ou arrebentada.
Precisaria encontrar novas roupas em breve; o mais provável era que tivesse de roubar. Estava vestido de negro dos pés à cabeça; botas altas de montar em couro, calças e túnica de ráfia, um colete de couro e um pesado manto de lã. A espada e o punhal estavam embainhados em pele negra de toupeira, e a camisa e a touca que tinha guardados no alforje eram de cota de malha negra.
Qualquer uma daquelas peças significaria sua morte se fosse apanhado. Um estranho vestido de negro era visto com uma suspeita fria em todas as aldeias e fortalezas a norte do Gargalo, e haveria em breve homens à sua procura. Assim que os corvos de Meistre Aemon levantassem voo, Jon sabia que não encontraria porto seguro. Nem mesmo em Winterfell. Bran poderia querer deixado entrar, mas Meistre Luwin tinha mais bom-senso. Trancaria os portões e o mandaria embora, tal como devia fazer. Era melhor nem passar por lá.
Mas via claramente o castelo com o olho da mente, como se tivesse partido no dia anterior; as grandes muralhas de granito, o Grande Salão com os seus cheiros de fumaça, de cães e de carne assando, o aposento privado do pai, o quarto na torre onde dormira. Parte de si nada mais desejava do que ouvir de novo a gargalhada de Bran, jantar uma das tortas de carne com bacon de Gage, ouvir a Velha Ama contar as suas histórias sobre os filhos da floresta e Florian, o Tolo.
Mas não abandonara a Muralha para isso; partira porque era, no fim das contas, filho de seu pai e irmão de Robb. O presente de uma espada, mesmo de uma espada tão boa como Garralonga, não fazia dele um Mormont. Tampouco era Aemon Targaryen. Três vezes o velho escolhera, e três vezes escolhera a honra, mas isso era ele. Mesmo agora Jon não conseguia decidir se o meistre ficara por ser fraco e covarde ou por ser forte e leal. Mas compreendia o que o velho quisera dizer quando falara da dor da escolha; compreendia isso bem demais.
Tyrion Lannister afirmara que a maior parte dos homens mais depressa negava uma verdade dura do que a encarava, mas Jon estava farto de negações. Ele era quem era: Jon Snow, bastardo e perjuro, sem mãe, sem amigos e perdido. Durante o resto de sua vida, não importa o quanto durasse, estaria condenado a viver como um estranho, o homem silencioso nas sombras que não se atreve a pronunciar o seu verdadeiro nome. Aonde quer que fosse nos Sete Reinos precisaria viver uma mentira, para que todas as mãos não se levantassem contra ele. Mas não importava, desde que vivesse tempo suficiente para ocupar o seu lugar ao lado do irmão e ajudar a vingar o pai.
Lembrava-se de Robb como o vira pela última vez, em pé, no pátio, com neve derretendo nos cabelos ruivos. Jon teria de encontrá-lo em segredo, disfarçado. Tentava imaginar a expressão na cara de Robb quando ele se revelasse, O irmão sacudiria a cabeça e sorriria, e diria... diria...
Não conseguia ver o sorriso. Por mais que tentasse, não conseguia vê-lo. Deu por si pensando no desertor que o pai decapitara no dia em que encontraram os lobos gigantes.
- Você disse as palavras - dissera-lhe Lorde Eddard. - Você fez um juramento perante os seus irmãos, perante os velhos deuses e os novos - Desmond e Gordo Tom tinham arrastado o homem até ao toco. Os olhos de Bran estavam dilatados como pires, e Jon tivera de lhe lembrar que mantivesse o cavalo controlado. Lembrava-se da expressão no rosto do pai quando Theon Greyjoy lhe dera Gelo, dos salpicos de sangue na neve, do modo como Theon pontapeara a cabeça quando ela rolara até junto de seus pés.
Perguntou-se o que teria feito Lorde Eddard se o desertor fosse o irmão Benjen em vez daquele estranho esfarrapado. Teria sido diferente? Tinha de ser, com certeza, com certeza... e Robb lhe daria as boas-vindas, sem dúvida. Tinha de fazê-lo, caso contrário...
Não valia a pena pensar nisso. A dor latejou, bem no interior dos dedos, quando se agarrou com força às rédeas. Jon bateu com os calcanhares no cavalo e pôs-se a galope, correndo pela estrada real como que para fugir das suas dúvidas. Não tinha medo da morte, mas não queria morrer assim, amarrado e decapitado como um simples salteador. Se tinha de perecer, que fosse de espada na mão, lutando contra os assassinos do pai. Não era um verdadeiro Stark, nunca o fora... mas podia morrer como se fosse. Que dissessem que Eddard Stark fora pai de quatro filhos, não de três.
Fantasma manteve o ritmo durante quase meia légua, com a língua vermelha pendendo da boca. O homem e o cavalo abaixaram a cabeça quando ele pediu mais velocidade à égua. O lobo desacelerou, parou, observando, com os olhos brilhando, vermelhos, o luar. Desapareceu atrás dele, mas Jon sabia que o seguiria, no seu próprio ritmo. Luzes dispersas cintilaram através das árvores em frente, de ambos os lados da estrada: Vila Toupeira. Um cão ladrou quando Jon passou por ele, e ouviu o zurro rouco de uma mula vindo do estábulo, mas fora isso a vila estava silenciosa. Aqui e ali, a cintilação das lareiras brilhava em janelas cobertas, esgueirando-se por entre ripas de madeira, mas eram só uma mão-cheia.
Vila Toupeira era maior do que parecia, pois três quartos dela eram subterrâneos, estendendo-se em profundas caves quentes ligadas por um labirinto de túneis. Até o bordel ficava lá embaixo, sem nada na superfície além de uma cabana de madeira que não era maior que uma latrina, com uma lanterna vermelha pendurada sobre a porta. Na Muralha podia-se ouvir os homens chamando às prostitutas "tesouros enterrados", Jon perguntou a si mesmo se algum de seus irmãos de negro estaria lá embaixo naquela noite, escavando. Isso também era quebra de votos, mas ninguém parecia se importar.
Só bem depois de passar pela vila é que Jon voltou a reduzir o passo. Nessa altura ele e a montaria já estavam úmidos de suor. Desmontou, tremendo, com a mão queimada doendo. Encontrou um monte de neve que derretia sob as árvores, clara ao luar, pingando água que ia formar pequenos charcos pouco profundos. Jon acocorou-se e juntou as mãos em taça, aprisionando a água corrente entre os dedos. A neve derretida estava fria como gelo. Bebeu, espalhou um pouco no rosto, até sentir um formigamento nas bochechas. Os dedos latejavam mais do que em qualquer dos últimos dias, e também sentia a cabeça palpitar. Estou fazendo o que é certo, disse a si mesmo, então, por que me sinto tão mal?
O cavalo estava espumando, e Jon pegou nas rédeas e o levou a pé durante algum tempo. A estrada quase não era suficientemente larga para que dois cavaleiros passassem lado a lado, com o piso entrecortado por pequenos córregos e cheio de pedras. Aquela corrida fora realmente estúpida, um convite para um pescoço quebrado. Jon se questionou o que lhe teria dado.
Estaria assim com tanta pressa de morrer? No meio das árvores, o grito distante de um animal assustado qualquer o fez erguer os olhos. A égua relinchou nervosamente. Teria o lobo encontrado alguma presa?
Envolveu a boca nas mãos.
- Fantasma! - gritou. - Fantasma, a mim - a única resposta foi um rumor de asas atrás de si quando uma coruja levantou vôo.
Franzindo as sobrancelhas, Jon prosseguiu caminho. Levou a égua durante meia hora, até que ela secou. Fantasma não apareceu. Jon queria montar e voltar a cavalgar, mas estava preocupado com o lobo desaparecido.
- Fantasma - voltou a chamar. - Onde está? A mim! Fantasma! - nada naquela floresta podia incomodar um lobo gigante, até um lobo gigante meio crescido, a menos que... não, Fantasma era inteligente demais para atacar um urso, e se houvesse uma alcateia de lobos nas imediações, Jon certamente os teria ouvido uivando.
Devia comer, decidiu. Os alimentos lhe acalmariam o estômago e dariam a Fantasma a chance de alcançá-lo. Ainda não havia perigo; Castelo Negro ainda dormia. No alforje encontrou um biscoito, um pedaço de queijo e uma pequena maçã escura e murcha. Trouxera também carne de vaca salgada e uma fatia de bacon que surrupiara das cozinhas, mas queria poupar a carne para o dia seguinte. Depois de ficar sem ela, teria de caçar, e isso por hora o atrasaria.
Jon sentou-se sob as árvores e comeu biscoito e queijo enquanto a égua pastava ao longo da Estrada do Rei. Deixou a maçã para o fim. Tinha se tornado um pouco mole, mas a polpa ainda estava ácida e sumarenta. Já chegara ao caroço quando ouviu os sons: cavalos, vindos do norte. Rapidamente, Jon saltou e correu para a égua. Poderia fugir? Não, estavam perto demais, certamente os ouviriam, e se viessem de Castelo Negro... Levou a égua para longe da estrada, para trás de uma espessa mata de árvores-sentinela cinza- esverdeadas.
- Agora silêncio - disse, numa voz abafada, agachando-se a fim de espreitar por entre os ramos. Se os deuses fossem bondosos, os cavaleiros passariam sem detectá-lo.
O mais provável era que fossem apenas pessoas simples de Vila Toupeira, lavradores a caminho dos campos, se bem que, o que estariam fazendo na estrada no meio da noite...
Ficou ouvindo o som dos cascos que aumentava a um ritmo constante, enquanto os cavalos se aproximavam a trote rápido pela Estrada do Rei. Julgando pelo ruído, eram pelo menos cinco ou seis cavaleiros. As vozes esgueiraram-se por entre as árvores.
- ...certeza de que ele veio por aqui?
- Não podemos ter certeza..
- Tanto quanto sabem, pode bem ter se dirigido para o leste. Ou abandonado a estrada para cortar através da floresta. Era o que eu faria.
- Na escuridão? Estúpido. Se não caísse do cavalo e quebrasse o pescoço, se perderia e acabaria de volta à Muralha quando o sol nascesse.
- Não acabava nada - Grenn soava irritado. - Cavalgava para o sul. Pode-se guiar pelas estrelas.
- E se o céu estivesse nublado? - perguntou Pyp.
- Então não ia.
Outra voz interrompeu.
- Sabem onde eu estaria, se fosse comigo? Em Vila Toupeira, para escavar tesouros enterrados - o riso estridente do Sapo trovejou através das árvores. A égua de Jon resfolegou.
- Calem-se todos - disse Halder. - Acho que ouvi qualquer coisa.
- Onde? Não ouvi nada - os cavalos pararam.
- Você não consegue ouvir o próprio peido.
- Consigo, sim - insistiu Grenn.
- Calem-se!
Caíram todos no silêncio, à escuta. Jon deu por si prendendo a respiração. Sam, pensou. Não fora até o Velho Urso, mas também não fora para a cama, acordara os outros rapazes. Malditos sejam todos. Chegada a alvorada, se não estivessem nas camas, seriam também chamados desertores. Que pensavam eles que estavam fazendo?
O silêncio abafado pareceu esticar-se e voltar a esticar-se. De onde Jon espreitava, conseguia ver as pernas dos cavalos deles através dos galhos. Por fim, Pyp falou.
- Que foi que ouviu?
- Não sei - admitiu Halder. - Um som, pensei que pudesse ser um cavalo, mas...
- Ali não há nada.
Pelo canto do olho Jon vislumbrou uma forma branca que se deslocava por entre as árvores. Ouviu-se o restolhar de folhas, e Fantasma saiu das sombras aos saltos, tão subitamente que a égua de Jon se assustou e soltou um relincho.
- Ali! - gritou Halder.
- Também ouvi!
- Traidor - disse Jon ao lobo gigante enquanto saltava para a sela. Virou a cabeça da égua para escapulir por entre as árvores, mas eles estavam em cima antes que avançasse três metros.
-Jon! - gritou Pyp às suas costas.
- Para - disse Grenn, - Não pode escapar de todos.
Jon fez rodopiar a montaria para enfrentá-los, puxando a espada.
- Voltem. Não quero machucar ninguém, mas o farei se tiver de ser.
- Um contra sete? - Halder fez um sinal. Os rapazes espalharam-se, rodeando-o.
- Que querem de mim? - Jon quis saber.
- Queremos levá-lo de volta para o seu lugar - disse Pyp.
- Meu lugar é com meu irmão.
- Seus irmãos agora somos nós - disse Grenn.
- Eles cortam sua cabeça se o apanharem, sabe? - Sapo soltou uma gargalhada nervosa. -Isto é tão estúpido, é como alguma coisa que um auroque poderia fazer.
- Não é nada - disse Grenn. - Não sou perjuro nenhum. Disse as palavras e foi a sério.
- Eu também - disse-lhes Jon. - Não compreendem? Eles assassinaram meu pai. É a guerra, meu irmão Robb está lutando nas terras do rio...
- Nós sabemos - disse Pyp solenemente. - Sam nos contou tudo.
- Temos pena pelo seu pai - disse Grenn - mas não importa. Depois de dizer as palavras, não pode partir, aconteça o que acontecer.
- Tenho de partir - disse Jon fervorosamente.
- Você disse as palavras - lembrou-lhe Pyp. - Agora começa a minha vigia, foi isto que disse. Não terminará até a minha morte.
- Viverei e morrerei no meu posto - acrescentou Grenn, concordando com a cabeça.
- Não é preciso me dizer as palavras, conheço-as tão bem como vocês - agora estava zangado. Por que não podiam deixá-lo ir em paz? Só tornavam as coisas mais difíceis.
- Soa a espada na escuridão - entoou Halder.
- O vigilante nas muralhas - piou Sapo.
Jon insultou-os a todos. Eles não lhe deram atenção.
Pyp fez avançar o cavalo, recitando:
- Sou o fogo que arde contra o frio, a luz que traz consigo a alvorada, a trombeta que acorda os que dormem, o escudo que defende os reinos dos homens.
- Não se aproxime - preveniu-o Jon, brandindo a espada. - Falo sério, Pyp - eles nem sequer traziam armaduras, podia cortá-los aos pedacinhos se tivesse de ser.
Matthar rodeara-o por trás. E juntou-se ao coro.
- Dou a minha vida e a minha honra à Patrulha da Noite.
Jon bateu com os calcanhares na égua, fazendo-a descrever um círculo. Os rapazes estavam agora em toda a sua volta, aproximando-se por todos os lados.
- Por esta noite... - Halder aproximou-se a trote, vindo da esquerda.
- ...e por todas as noites que estão por vir - terminou Pyp. Estendeu a mão para as rédeas de Jon. - Portanto, sua escolha é esta. Ou me mata ou torna comigo.
Jon ergueu a espada... e a abaixou, impotente.
- Maldito seja - disse. - Malditos sejam todos,
- Temos de atar suas mãos ou promete que voltará pacificamente? - perguntou Halder.
- Não fugirei, se é isso que quer saber - Fantasma saiu das árvores e Jon enviou-lhe um olhar zangado. - Pouca ajuda você me deu - disse. Os profundos olhos vermelhos olharam-no com inteligência.
- É melhor que nos apressemos - disse Pyp. - Se não estivermos de volta antes da primeira luz da aurora, o Velho Urso terá todas as nossas cabeças.
Da viagem de regresso Jon Snow pouco recordaria. Pareceu mais curta que a viagem para o sul, talvez por ter a cabeça em outro lugar. Pyp marcou o ritmo, galopando, ritmando o passo, trotando e depois rebentando de novo a galope. Vila Toupeira chegou e partiu, já com a lanterna por cima do bordel há muito extinta. Fizeram um bom tempo. A alvorada ainda estava a uma hora de distância quando Jon vislumbrou as torres de Castelo Negro à frente do grupo, escuras contra a pálida imensidão da Muralha. Dessa vez não as sentia como uma casa.
Podiam levá-lo de volta, disse Jon a si mesmo, mas não podiam obrigá-lo a ficar. A guerra não terminaria de manhã, nem no dia seguinte, e os amigos não podiam vigiá-lo dia e noite. Esperaria a sua hora, faria com que pensassem que se sentia satisfeito por permanecer ali... e então, quando relaxassem, partiria de novo. Da próxima vez, evitaria a Estrada do Rei. Seguiria a Muralha para o leste, talvez até mesmo ao mar, uma trajetória mais longa, mas mais segura. Ou até talvez para o oeste, para as montanhas, e depois para o sul pelos passos de altitude. Era esse o caminho dos selvagens, duro e perigoso, mas pelo menos ninguém o seguiria. Não se aproximaria cem léguas de Winterfell ou da Estrada do Rei.
Samwell Tarly os esperava nos estábulos velhos, abandonado no chão e de encontro a um fardo de feno, ansioso demais para dormir. Ergueu-se e sacudiu-se.
- Eu... estou feliz por terem te encontrado, Jon.
- Mas eu não - disse Jon, desmontando.
Pyp saltou do cavalo e olhou para o céu que clareava, descontente.
- Dá-nos uma ajuda para tratar dos cavalos, Sam - disse o pequeno rapaz. - Temos um longo dia pela frente e nenhum descanso para enfrentá-lo, graças a Lorde Snow.
Quando o dia rompeu, Jon dirigiu-se às cozinhas como fazia todas as madrugadas. Hobb Três-Dedos não lhe disse nada quando lhe deu a refeição matinal do Velho Urso. Naquele dia eram três ovos vermelhos cozidos, com pão frito, uma fatia de presunto e uma tigela de ameixas secas. Jon levou a comida para a Torre do Rei. Foi encontrar Mormont no banco da janela, escrevendo. O corvo caminhava de um lado para o outro por cima de seus ombros, resmungando "Grão, grão, grão". A ave soltou um guincho quando Jon entrou.
- Põe a comida na mesa - disse o Velho Urso, olhando-o de relance. - Quero um pouco de cerveja.
Jon abriu uma janela que tinha os tapumes corridos, tirou o jarro de cerveja do parapeito exterior e encheu um corno. Hobb dera-lhe um limão, ainda frio da Muralha. Jon o esmagou no punho. O sumo escorreu-lhe por entre os dedos. Mormont bebia limão na cerveja todos os dias, e dizia que era por isso que ainda tinha os dentes,
- Sem dúvida que amava seu pai - disse Mormont quando Jon lhe trouxe o corno. - As coisas que amamos destroem-nos sempre, rapaz. Lembra de quando lhe disse isso?
- Lembro - disse Jon em tom carrancudo. Não queria falar da morte do pai, nem mesmo com Mormont.
- Vê se nunca se esquece. As verdades duras são aquelas que se deve segurar bem. Vá buscar meu prato. E outra vez presunto? Que seja. Está com um ar cansado. Seu passeio ao luar foi assim tão cansativo?
Jon sentiu a garganta seca.
- Você sabe?
"Saber", disse o corvo dos ombros de Mormont. "Saber". O Velho Urso bufou.
-Julga que me escolheram para Senhor Comandante da Patrulha da Noite por ser estúpido que nem um toco, Snow? Aemon disse-me que partiria. Eu lhe disse que regressaria. Conheço os meus homens... e também os meus rapazes, A honra o levou à Estrada do Rei... e a honra o trouxe de volta.
- Foram os meus amigos que me trouxeram de volta - disse Jon.
- Acaso disse que tinha sido a sua honra? - Mormont inspecionou o prato.
- Mataram meu pai. Esperavam que eu não fizesse nada?
- Em boa verdade, esperávamos que fizesse precisamente o que fez - Mormont experimentou uma ameixa e cuspiu o caroço. - Ordenei que fosse vigiado. Você foi visto saindo. Se seus irmãos não o tivessem ido buscar, teria sido apanhado no caminho, e não por amigos. A menos que tenha um cavalo com asas como um corvo. Tem?
- Não - Jon sentia-se um idiota.
- É pena, um cavalo assim nos seria útil.
Jon empertigou-se. Disse a si mesmo que morreria bem; isso, pelo menos, podia fazer.
- Conheço a pena por deserção, senhor. Não tenho medo de morrer.
"Morre!", gritou o corvo.
- Nem de viver, espero eu - disse Mormont, cortando o presunto com o punhal e dando um bocado à ave. - Não desertou... ainda. Está aqui. Se decapitássemos todos os rapazes que vão a Vila Toupeira durante a noite, só fantasmas patrulhariam a Muralha. Mas talvez pretenda fugir de novo amanhã, ou daqui a uma quinzena. E isso? É essa a sua esperança, rapaz?
Jon manteve-se em silêncio.
- Era o que eu pensava - Mormont tirou a casca de um ovo cozido. - Seu pai está morto, rapaz. Julga que pode trazê-lo de volta?
- Não - respondeu, carrancudo.
- Ótimo - disse Mormont. - Vimos os mortos regressar, você e eu, e não é algo que eu queira ver de novo - comeu o ovo em duas dentadas e arrancou um pedaço de casca do meio dos dentes. - Seu irmão está no terreno com todo o poder do Norte com ele. Qualquer um dos senhores seus vassalos comanda mais espadas do que poderá encontrar em toda a Patrulha da Noite. Por que imaginará você que precisam da sua ajuda? É um guerreiro assim tão poderoso, ou tem um gramequim no bolso para te dar magia à espada?
Jon não tinha resposta para lhe dar. O corvo bicava um ovo, quebrando a casca. Enfiando o bico através do buraco, puxou bocados de clara e de gema. O Velho Urso suspirou.
- Não é o único atingido por esta guerra. Quer eu goste quer não, minha irmã marcha na tropa do seu irmão, ela e aquelas suas filhas, vestidas com cotas de malha de homem. Maege é uma velha snark grisalha, teimosa, com mau gênio e voluntariosa. A bem da verdade, quase não consigo estar perto da maldita mulher, mas isso não quer dizer que meu amor por ela seja menor que o amor que sente pelas suas meias-irmãs - franzindo as sobrancelhas, Mormont pegou o último ovo e o esmagou no punho até que a casca estalou. - Ou talvez queira. Mas, seja como for, me desgostaria da mesma forma se ela fosse morta, e você não me vê fugir. Eu disse as palavras, tal como você. Meu lugar é aqui... Onde é o seu, rapaz?
Não tenho lugar nenhum, Jon quis dizer. Sou um bastardo, não tenho direitos, nem nome, nem mãe, e agora nem sequer um pai. Mas as palavras não vinham.
- Não sei.
- Eu sei - disse o Senhor Comandante Mormont. - Os ventos frios se levantam, Snow. Para lá da Muralha, as sombras alongam-se. Cotter Pyke escreve sobre vastas manadas de alces correndo ao sul e a leste na direção do mar, e também de mamutes. Diz que um de seus homens descobriu enormes pegadas deformadas a menos de três léguas de Atalaialeste. Patrulheiros da Torre Sombria encontraram aldeias inteiras abandonadas, e de noite Sor Denys diz que veem fogueiras nas montanhas, enormes clarões que ardem do pôr do sol até a alvorada. Quorin Halfhand trouxe um cativo das profundezas da Garganta, e o homem jura que Mance Rayder está reunindo toda a sua gente num novo forte secreto que acreditam ter encontrado, para que fim só os deuses sabem. Julga que seu tio Benjen foi o único patrulheiro que perdemos neste último ano?
"Ben Jen", crocitou o corvo, inclinando a cabeça., com pedacinhos de ovo caindo do bico. "Ben Jen. Ben Jen"
- Não - disse Jon. Tinha havido outros. Muitos.
- Julga que a guerra do seu irmão é mais importante que a nossa? - ladrou o velho.
Jon mordeu o lábio. O corvo bateu as asas na sua direção. "Guerra, guerra, guerra, guerra", cantou.
- Não é - disse-lhe Mormont. - Os deuses nos salvem, rapaz, você não é cego e não é estúpido. Quando os mortos andam à caça na noite, julga que importa quem se senta no Trono de Ferro?
- Não - Jon não pensara no assunto daquela maneira.
- O senhor seu pai o enviou até nós, Jon. Por que, quem poderá dizê-lo?
"Por quê? Por quê? Por quê?", gritou o corvo.
- Tudo o que sei é que o sangue dos Primeiros Homens corre nas veias dos Stark. Os Primeiros Homens construíram a Muralha, e diz-se que se lembram de coisas que os outros esqueceram. E aquele seu animal... foi ele que nos levou às criaturas, que o preveniu do morto nas escadas. Sor Jaremy chamaria sem dúvida a isso um acaso, mas ele está morto, e eu não - Lorde Mormont espetou a ponta do punhal num pedaço de presunto. - Acho que era o seu destino estar aqui, e quero você e seu lobo conosco quando avançarmos para lá da Muralha.
As palavras fizeram com que as costas de Jon se arrepiassem de excitação.
- Para lá da Muralha?
- Você ouviu o que eu disse. Pretendo encontrar Ben Stark, vivo ou morto - mastigou e engoliu. - Não vou ficar aqui docilmente sentado à espera das neves e dos ventos gelados. Temos de saber o que está acontecendo. Desta vez, a Patrulha da Noite avançará em força, contra o Rei-para-lá-da-Muralha, os Outros, ou seja o que for que se encontre por lá. Pretendo ser eu próprio a comandá-los - apontou o punhal para o peito de Jon. - Segundo o costume, o intendente do Senhor Comandante é também o seu escudeiro... mas não pretendo acordar todas as manhãs perguntando a mim mesmo se terá fugido de novo. Por isso quero uma resposta de você, Lorde Snow, e quero-a já. É um irmão da Patrulha da Noite... ou só um rapazinho bastardo que quer brincar de guerra?
Jon Snow endireitou-se e inspirou profunda e longamente. Perdoem-me, pai, Robb, Arya, Bran... perdoem-me não posso ajudá-los. Ele tem razão. É este o meu lugar.
- Eu sou... seu, senhor. Seu homem. Juro. Não voltarei a fugir.
O Velho Urso resfolegou.
- Ótimo. Agora vá buscar sua espada.