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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
CRÔNICAS DE GELO E FOGO
- A GUERRA DOS TRONOS
- A FÚRIA DOS REIS
- A TORMENTA DE ESPADAS
- O FESTIM DOS CORVOS
- A DANÇA DOS DRAGÕES
- OS VENTOS DO INVERNO (só depende do autor, previsto p/ 2015)
GLOSSÁRIO
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
GUERRA DOS TRONOS
AS
CRÔNICAS DE GELO
E FOGO
LIVRO UM
A GUERRA
DOS TRONOS
Tradução
Jorge
Candeias
2010
PRÓLOGO
1 - BRAN
2 - CATELYN
3 - DAENERYS
4 - EDDARD
5 - JON
6 - CATELYN
7 - ARYA
8 - BRAN
9 - TYRION
10 - JON
11 - DAENERYS
12 - EDDARD
13 - TYRION
14 - CATELYN
15 - SANSA
16 - EDDARD
17 - BRAN
18 - CATELYN
19 - JON
20 - EDDARD
21 - TYRION
22 - ARYA
23 - DAENERYS
24 - BRAN
25 - EDDARD
26 - JON
27 - EDDARD
28 - CATELYN
29 - SANSA
30 - EDDARD
31 - TYRION
32 - ARYA
33 - EDDARD
34 - CATELYN
35 - EDDARD
36 - DAENERYS
37 - BRAN
38 - TYRION
39 - EDDARD
40 - CATELYN
41 - JON
42 - TYRION
43 - EDDARD
44 - SANSA
45 - EDDARD
46 - DAENERYS
47 - EDDARD
48 - JON
49 - EDDARD
50 - ARYA
51 - SANSA
52 - JON
53 - BRAN
54 - DAENERYS
55 - CATELYN
56 - TYRION
57 - SANSA
58 - EDDARD
59 - CATELYN
60 - JON
61 - DAENERYS
62 - TYRION
63 - CATELYN
64 - DAENERYS
65 - ARYA
66 - BRAN
67 - SANSA
68 - DAENERYS
69 - TYRION
70 - JON
71 - CATELYN
72 -DAENERYS
GLOSSÁRIO
terça-feira, 10 de setembro de 2013
72 -DAENERYS
A terra
era vermelha, morta e ressequida, e era difícil encontrar boa
madeira. Os forrageiros regressaram com algodoeiros nodosos, arbustos
roxos, feixes de grama seca. Abateram as duas árvores menos
retorcidas, desbastaram os galhos, arrancaram a casca e
dividiram-nas, dispondo as toras em quadrado. Encheram o centro com
palha, arbustos, aparas de casca de árvore e fardos de mato seco.
Rakharo escolheu um garanhão da pequena manada que lhes restava; não
era tão nobre como o vermelho de Khal Drogo, mas poucos cavalos o
eram. No centro do quadrado, Aggo deu-lhe uma maçã mirrada e o
abateu num instante com um golpe de machado dado entre os olhos.
Atada de
pés e mãos, Mirri Maz Duur observava da poeira com inquietação em
seus olhos negros.
- Não
basta matar um cavalo - disse a Dany. - Em si mesmo, o sangue não é
nada. Não sabe as palavras para fazer um feitiço, nem tem a
sabedoria para encontrá-las. julga que a magia de sangue é um jogo
de crianças? Chamam-me maegi como se fosse uma praga, mas tudo o que
isso significa é sábio. E uma criança, com a ignorância de uma
criança. Seja o que for que pretenda fazer, não dará resultado.
Solte-me destes nós, e eu a ajudo.
- Estou
farta dos zurros da maegi - disse Dany a Jhogo.
Ele
brindou-a com o chicote, e depois daquilo a esposa de deus manteve-se
em silêncio.
Por cima
da carcaça do cavalo, construíram uma plataforma de toras
decepadas; troncos de árvores menores e braços das maiores, e os
mais grossos e direitos galhos que conseguiram encontrar. Dispuseram
a madeira de leste para oeste, do nascente ao poente. Sobre a
plataforma, empilharam os tesouros de Khal Drogo: sua grande tenda,
os coletes pintados, as selas e arreios, o chicote que o pai lhe dera
quando se fizera um homem, o arakh que usara para matar Khal Ogo e o
filho, um grande arco de osso de dragão. Aggo queria juntar também
as armas que os companheiros de sangue de Drogo tinham dado a Dany
como presentes de noivado, mas ela o proibiu.
- Essas
são minhas - disse-lhe - e quero ficar com elas - outra camada de
arbustos foi depositada em volta dos tesouros do khal, e feixes de
mato seco foram espalhados sobre eles.
Sor Jorah
Mormont puxou-a de lado quando o sol se aproximava do zénite.
-
Princesa... - começou.
- Por que
me chama assim? - desafiou Dany. - Meu irmão Viserys era seu rei,
não é verdade?
- Era,
senhora.
- Viserys
está morto. Eu sou sua herdeira, o último sangue da Casa Targaryen.
O que quer que fosse dele é agora meu.
-
Minha... rainha - disse Sor Jorah, caindo sobre um joelho. - Minha
espada, que era dele, é sua, Daenerys. E o meu coração também,
que nunca pertenceu a vosso irmão. Sou apenas um cavaleiro, e nada
tenho a oferecer-lhe exceto o exílio, mas escute-me, suplico-lhe.
Esqueça Khal Drogo. Não estará só. Prometo-lhe que nenhum homem a
levará para Vaes Dothrak a menos que deseje ir. Não tem de se
juntar às dosh khaken. Venha para o leste comigo, Yi Ti, Qarth, o
Mar de Jade, Asshai da Sombra. Veremos todas as maravilhas que ainda
há para ver, e beberemos os vinhos que os deuses achem por bem nos
oferecer. Por favor, khakesi. Sei o que pretende fazer. Não o faça.
Não o faça.
- Tenho
de fazê-lo - disse-lhe Dany. Tocou-lhe o rosto, com carinho, com
tristeza. - O senhor não compreende.
-
Compreendo que o amava - disse Sor Jorah com uma voz carregada de
desespero. - Há tempos amei a senhora minha esposa, mas não morri
com ela. É a minha rainha, a minha espada é sua, mas não me peça
para me afastar enquanto sobe para a pira de Drogo, Não a verei
arder.
- É isso
o que teme? - Dany deu-lhe um leve beijo na testa larga. - Não sou
assim tão infantil, querido sor.
- Não
planeja morrer com ele? Jura, minha rainha?
-Juro -
disse ela no Idioma Comum dos Sete Reinos que por direito eram seus.
O
terceiro nível da plataforma foi tecido com ramos que não eram mais
grossos que um dedo, e coberto com folhas e raminhos secos.
Dispuseram-nos de norte a sul, do gelo ao fogo, e em cima colocaram
uma grande pilha de suaves almofadas e sedas de dormir. O sol
começava a baixar em direção a oeste quando terminaram. Dany
chamou os dothrakis. Restavam menos de uma centena. Com quantos
começara Aegon?, perguntou ela a si mesma. Não importava.
- Serão
o meu khalasar - disse-lhes. - Vejo os rostos de escravos.
Liberto-os. Tirem as coleiras. Partam se quiser, ninguém lhes fará
mal. Se ficarem, serão como irmãos e irmãs, maridos e esposas - os
olhos negros observavam, cautelosos, sem expressão. - Vejo crianças,
mulheres, os rostos enrugados dos idosos. Ontem era uma criança.
Hoje sou uma mulher. Amanhã serei velha. A cada um de vocês digo:
deem-me suas mãos e os seus corações, e haverá sempre lugar para
todos - virou-se para os três jovens guerreiros do seu khas. -
Jhogo, a você ofereço o chicote de cabo de prata que foi meu
presente de noivado, nomeio-o ko e peço que jure que viverá e
morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me
manter a salvo do mal.
Jhogo
aceitou o chicote de suas mãos, mas o rosto mostrava confusão.
- Khakesi
- disse hesitantemente - isto não se faz. Seria uma vergonha ser
companheiro de sangue de uma mulher.
- Aggo -
chamou Dany, sem prestar atenção às palavras de Jhogo. Se olhar
para trás, estou perdida. - A você ofereço o arco de osso de
dragão que foi meu presente de noivado - tinha dupla curvatura, era
de um negro brilhante e requintado, mais alto que ela. - Nomeio-o ko,
e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue,
cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal,
Aggo
aceitou o arco com os olhos baixos.
- Não
posso dizer essas palavras. Só um homem pode liderar um khalasar ou
nomear um ko.
- Rakharo
- disse Dany, virando as costas à recusa - você ficará com o
grande arakh que foi meu presente de noivado, com ouro incrustado no
cabo e na lâmina. E também o nomeio ko, e peço que jure que viverá
e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me
manter a salvo do mal.
- É
khaleesi - disse Rakharo, recebendo o arakh. - Cavalgarei ao seu lado
até Vaes Dothrak sob a Mãe das Montanhas, e a manterei a salvo do
mal até ocupar o seu lugar com as feiticeiras do dosh khaleen. Não
posso prometer mais.
Ela
acenou, tão calmamente como se não tivesse ouvido sua resposta, e
virou-se para o último de seus campeões.
- Sor
Jorah Mormont - disse - primeiro e maior dos meus cavaleiros, não
tenho presente de noivado para lhe oferecer, mas juro que um dia
receberá das minhas mãos uma espada longa como o mundo nunca viu
outra igual, forjada por um dragão e feita de aço valiriano. E
quero pedir também seu juramento.
- É seu,
minha rainha - disse Sor Jorah, ajoelhando-se para depositar a espada
aos pés dela. -Juro servi-la, obedecê-la, morrer pela senhora se
for necessário.
-
Aconteça o que acontecer?
-
Aconteça o que acontecer.
-
Lembrarei desse juramento. Rezo para que nunca se arrependa de tê-lo
feito - Dany o fez se levantar. Pondo-se na ponta dos pés para lhe
chegar aos lábios, deu um leve beijo no cavaleiro e disse: - É o
primeiro da minha Guarda Real.
Conseguia
sentir os olhos do khalasar postos nela ao entrar na tenda. Os
dothrakis resmungavam e lançavam-lhe estranhos olhares de soslaio
com seus olhos escuros e amendoados. Dany compreendeu que a julgavam
louca. Talvez estivesse. Saberia em breve. Se olhar para trás, estou
perdida,
O banho
estava escaldando quando Irri a ajudou a entrar na banheira, mas Dany
não vacilou nem gritou. Gostava do calor. Fazia-a sentir-se limpa.
Jhiqui aromatizara a água com os óleos que Dany encontrara no
mercado em Vaes Dothrak; o vapor subia úmido e odorífero. Doreah
lavou-lhe os cabelos e os escovou, soltando os nós e os
desembaraçando. Irri escovou-lhe as costas. Dany fechou os olhos e
deixou que o cheiro e a tepidez a envolvessem. Sentia o calor
ensopando a região machucada entre as coxas. Estremeceu quando a
penetrou, e sua dor e rigidez pareceram se dissolver. Flutuou.
Quando
ficou limpa, as aias ajudaram-na a sair da água. Irri e Jhiqui
secaram-na, enquanto Doreah lhe escovava os cabelos até deixá-los
como um rio de prata que lhe descia pelas costas. Perfumaram-na com
florespeciaria e canela; uma gota em cada pulso, atrás das orelhas,
na ponta dos seios pesados de leite. O último salpico destinava-se
ao sexo. O dedo de Irri foi tão ligeiro e fresco como o beijo de um
amante ao deslizar suavemente entre seus lábios.
Depois,
Dany mandou todos embora para que pudesse preparar Khal Drogo para a
sua última cavalgada às terras da noite. Lavou-lhe o corpo e
escovou e oleou seus cabelos, fazendo correr os dedos por eles uma
última vez, sentindo-lhes o peso, recordando a primeira vez que os
tocara, na noite da cavalgada de casamento. Seus cabelos nunca foram
cortados. Quantos homens podiam morrer sem nunca terem cortado os
cabelos? Submergiu o rosto neles e inalou a escura fragrância dos
óleos. Cheirava a erva e a terra quente, a fumaça, a sêmen e a
cavalos. Cheirava a Drogo. Perdoa-me, sol da minha vida, pensou.
Perdoa-me por tudo o que fiz e por tudo o que tenho de fazer. Paguei
o preço, minha estrela, mas foi alto demais, alto demais...
Dany
entrançou seus cabelos, prendeu seus anéis de prata no bigode e
pendurou as campainhas, uma a uma. Tantas campainhas, de ouro, prata
e bronze. Campainhas para que os inimigos o ouvissem chegar e
ficassem fracos de medo. Vestiu-o com calções de pelo de cavalo e
botas altas, afivelando à cintura um pesado cinto de medalhões de
ouro e prata. Sobre seu peito marcado por cicatrizes, enfiou um
colete pintado, velho e desbotado, aquele de que Drogo mais gostava.
Para si escolheu calças largas de sedareia, sandálias atadas até o
meio da perna e um colete como o de Drogo.
O sol
estava descendo quando voltou a chamá-los para levarem o corpo dele
até a pira. Os dothrakis observaram em silêncio quando Jhogo e Aggo
o trouxeram da tenda. Dany os seguia. Depositaram-no nas almofadas e
sedas, com a cabeça voltada para a Mãe das Montanhas, lá longe
para nordeste,
- Óleo -
ordenou ela, e trouxeram os jarros e despejaram o óleo sobre a pira,
empapando as sedas, os arbustos e os feixes de mato seco, até que
pingou sob as toras e o ar ficou rico de fragrâncias. - Tragam-me os
meus ovos - ordenou Dany às aias. Algo na sua voz as fez correr.
Sor Jorah
pegou-lhe no braço.
- Minha
rainha, Drogo não terá nenhuma utilidade para ovos de dragão nas
terras da noite. E melhor vendê-los em Asshai. Venda um, e poderá
comprar um navio que nos leve de volta para as Cidades Livres. Venda
os três, e será uma mulher abastada até o fim dos seus dias.
- Não me
foram dados para vender - disse-lhe Dany.
Subiu ela
mesma na pira para colocar os ovos em volta do seu sol-e-estrelas. O
negro junto ao coração, debaixo do braço. O verde ao lado da
cabeça, com a trança enrolada nele. O creme e dourado entre as
pernas. Quando o beijou pela última vez, Dany sentiu a doçura do
óleo em seus lábios. Ao descer da pira, reparou que Mirri Maz Duur
a observava.
- É
louca - disse roucamente a esposa de deus.
- Há
assim tão grande distância entre a loucura e a sabedoria? -
perguntou Dany. - Sor Jorah, ate esta maegi à pira.
- À
pir... minha rainha, não, escute-me...
- Faça o
que eu digo - mesmo assim, ele hesitou até que a ira dela flamejou.
- Jurou me obedecer, acontecesse o que acontecesse. Rakharo, ajude-o.
A esposa
de deus não gritou quando a arrastaram para a pira de Khal Drogo e a
prenderam entre os seus tesouros. Foi a própria Dany quem despejou o
óleo na cabeça da mulher.
-
Agradeço-lhe, Mirri Maz Duur - disse - pelas lições que me
ensinou.
- Não me
ouvirá gritar - respondeu Mirri enquanto o óleo lhe pingava da
cabeça e ensopava as suas roupas.
- Ouvirei
- disse Dany - mas o que quero não são os seus gritos, só a sua
vida. Lembro-me do que me disse. Só a morte pode pagar pela vida -
Mirri Maz Duur abriu a boca, mas não respondeu. Ao se afastar, Dany
viu que o desprezo tinha desaparecido dos olhos negros e achatados da
maegi, no seu lugar havia algo que poderia ser medo. Depois, nada
ficou por fazer, a não ser observar o sol e procurar a primeira
estrela. Quando um senhor dos cavalos morre, seu cavalo é morto com
ele, para que possa montar orgulhoso nas terras da noite. Os corpos
são queimados a céu aberto, e o khal ergue-se na sua montaria de
chamas para ocupar o seu lugar entre as estrelas. Quanto mais
ferozmente o homem tiver queimado em vida, mais brilhante sua estrela
será na escuridão.
Jhogo a
viu primeiro.
- Ali -
disse ele numa voz abafada. Dany olhou e a viu, baixa, no leste. A
primeira estrela era um cometa que ardia, vermelho. Vermelho de
sangue; vermelho de fogo; a cauda do dragão. Não poderia ter pedido
um sinal mais forte.
Dany
tirou o archote da mão de Aggo e o enfiou entre as toras. O óleo
pegou fogo de imediato, os arbustos e o mato seco um instante depois.
Minúsculas chamas correram pela madeira como velozes ratos
vermelhos, patinando sobre o óleo e saltando de casca em ramo, de
ramo em folha. Um calor que aumentava soprou-lhe no rosto, suave e
súbito como o hálito de um amante, mas em segundos se tornara
quente demais para suportar.
Dany deu
um passo atrás, A madeira estalou, cada vez mais alto. Mirri Maz
Duur começou a cantar numa voz estridente e ululante. As chamas
rodopiaram e contorceram-se, fazendo corridas umas com as outras pela
plataforma acima. O ocaso ondulou quando o próprio ar pareceu
liquefazer-se com o calor. Dany ouviu toras que se fendiam e
estalavam. O fogo envolveu Mirri Maz Duur. A canção dela tornou-se
mais sonora, mais estridente... e então arquejou, uma vez e outra, e
a canção transformou-se num lamento trêmulo, agudo, sonoro e cheio
de agonia.
E agora
as chamas chegavam ao seu Drogo, e o rodeavam por completo. Suas
roupas pegaram fogo, e por um instante o khal ficou vestido com
farrapos de flutuante seda cor de laranja e elos de fumaça
rodopiante, cinzenta e oleosa. Os lábios de Dany abriram-se, e ela
deu por si prendendo a respiração.
Parte de
si queria ir com ele, como Sor Jorah temera, correr para as chamas
para lhe pedir perdão e introduzi-lo no seu corpo uma última vez,
deixando o fogo derreter a carne até se tornarem um só, para
sempre. Conseguia sentir o cheiro de carne queimada, em nada
diferente da carne de cavalo assando numa fogueira. A pira rugia no
crepúsculo que se aprofundava como um grande animal, afogando o som
mais fraco dos gritos de Mirri Maz Duur e projetando longas línguas
de fogo para lamber a barriga da noite. Quando a fumaça se tornou
mais espessa, os dothrakis se afastaram, tossindo.
Grandes
gotas de fogo cor de laranja desenrolaram seus estandartes naquele
vento infernal, com as toras silvando e estalando, e fagulhas
brilhantes erguendo-se na fumaça e afastando-se, flutuando como
outros tantos vaga-lumes recém-nascidos. O calor batia o ar com
grandes asas vermelhas, afastando os dothrakis, afastando até
Mormont, mas Dany ficou no seu lugar.
Era do
sangue do dragão, e tinha o fogo em si. Sentira a verdade havia
muito, pensou Dany quando deu um passo para mais perto do incêndio,
mas o braseiro nunca estivera suficientemente quente. As chamas
contorciam-se à sua frente como as mulheres que dançaram no seu
casamento, rodopiando, cantando e fazendo girar seus véus amarelos,
laranja e carmins, terríveis de admirar, mas ao mesmo tempo
adoráveis, tão adoráveis, vivas de calor. Dany abriu os braços,
com a pele corada e brilhando. Isto também é um casamento, pensou.
Mirri Maz Duur caíra no silêncio. A esposa de deus a julgara uma
criança, mas as crianças crescem, e aprendem.
Outro
passo, e Dany sentiu o calor da areia nas solas dos pés, apesar das
sandálias. Suor escorreu-lhe pelas coxas, por entre os seios e em
regatos pelas bochechas, onde antes tinham corrido lágrimas. Sor
Jorah gritava atrás dela, mas eleja não importava, somente o fogo.
As chamas eram tão belas, as coisas mais lindas que jamais vira
antes, cada uma delas uma feiticeira vestida de amarelo, laranja e
escarlate, fazendo rodopiar longos mantos fumarentos. Viu leões de
fogo carmesins e grandes serpentes amarelas e unicórnios feitos de
chamas azul-claras; viu peixes e raposas e monstros, lobos e aves
brilhantes e árvores floridas, cada uma mais bela que a anterior.
Viu um cavalo, um grande garanhão cinzento retratado na fumaça, com
uma auréola de chama azul no lugar da crina. Sim, meu amor, meu
sol-e-estrelas, sim, monte agora, cavalgue agora.
Seu
colete começara a pegar fogo, e Dany o tirou e deixou cair ao chão.
O couro pintado rebentou em súbitas chamas quando deu um pequeno
salto para mais perto do fogo, com os seios nus perante as chamas,
córregos de leite a jorrar dos mamilos vermelhos e inchados. Agora,
pensou, agora, e por um instante vislumbrou Khal Drogo à sua frente,
montado em seu garanhão de fumaça, com um chicote de fogo na mão.
Ele
sorriu, e o chicote serpenteou para a pira, silvando. Ouviu um crac,
o som de pedra que se quebra. A plataforma de árvores, arbustos e
mato começou a deslocar-se e a colapsar sobre si mesma. Pedaços de
madeira ardendo deslizaram até junto dela, e Dany foi salpicada por
cinzas e fagulhas. E algo mais caiu, saltando e rolando, parando a
seus pés; um pedaço de rocha curva, de cor clara e com veios de
ouro, quebrada e fumegante. O rugido enchia o mundo, mas, de um modo
tênue, Dany ouviu através da catarata de fogo gritos de mulheres e
choros de crianças, incrédulas. Só a morte pode pagar pela vida.
E então
se ouviu um segundo crac, tão sonoro e cortante como um trovão, e a
fumaça agitou-se e rodopiou em torno dela e a pira oscilou, com as
toras explodindo quando o fogo atingiu os seus corações secretos.
Ouviu os gritos de cavalos assustados e as vozes dos dothrakis em
gritos de medo e terror, e Sor Jorah chamando pelo seu nome e
praguejando. Não, quis gritar, não, meu bom cavaleiro, não tema
por mim. O fogo é meu. Sou Daenerys, nascida na Tempestade, filha de
dragões, noiva de dragões, mãe de dragões, não vê? Não vê?
Com um
vômito de chamas e fumaça que subiu a nove metros de altura, a pira
ruiu e caiu à sua volta. Sem medo, Dany deu um passo para a
tempestade de fogo, chamando pelos seus filhos.
O
terceiro crac foi tão sonoro e cortante como se o mundo se rasgasse.
Quando o fogo enfim morreu e o chão ficou suficientemente frio para
poder ser atravessado, Sor Jorah Mormont encontrou-a entre as cinzas,
rodeada por toras enegrecidas, fagulhas de brasas incandescentes e os
ossos queimados de homem, mulher e garanhão. Estava nua, coberta de
fuligem, com as roupas transformadas em cinzas, os belos cabelos
torrados até desaparecer... mas incólume.
O dragão
creme e dourado chupava-lhe o seio esquerdo, o verde e cor de bronze,
o direito. Os braços dela os embalavam bem perto. O animal negro e
escarlate envolvia-lhe os ombros, com o longo pescoço sinuoso
enrolado sob seu queixo. Quando viu Jorah, ergueu a cabeça e o
encarou com olhos vermelhos como brasas.
Sem
palavras, o cavaleiro caiu de joelhos. Os homens do seu khas vieram
atrás dele. Jhogo foi o primeiro a depositar o arakh a seus pés.
- Sangue
do meu sangue - murmurou, inclinando o rosto à terra fumegante.
- Sangue
do meu sangue - ouviu Aggo repetir num eco.
- Sangue
do meu sangue - gritou Rakharo.
E depois
dele vieram as aias, e depois os outros, todos os dothrakis, homens,
mulheres e crianças, e Dany não teve mais que olhar para os seus
olhos para saber que eram seus agora, hoje, amanhã e para sempre,
seus como nunca tinham sido de Drogo.
Quando
Daenerys Targaryen se pôs em pé, seu dragão negro silvou, com
fumaça clara saindo da boca e das narinas. Os outros dois
afastaram-se dos seios e somaram suas vozes ao chamamento, com asas
translúcidas abrindo-se e agitando o ar, e pela primeira vez em
centenas de anos a noite ganhou vida com a música dos dragões.
71 - CATELYN
Parecia
terem se passado mil anos desde que Catelyn Stark levara o filho bebê
de Correrrio, atravessando o Pedregoso num pequeno barco para dar
início à viagem para o norte até Winterfell. E era pelo Pedregoso
que regressavam agora para casa, embora o rapaz vestisse armadura e
cota de malha em vez de cueiros.
Robb
estava sentado à proa com Vento Cinzento, descansando a mão na
cabeça do lobo gigante enquanto os remadores puxavam os remos. Theon
Greyjoy encontrava-se com ele. O tio Brynden vinha depois no segundo
barco, com Grande-Jon e Lorde Karstark.
Catelyn
ocupou um lugar perto da popa. Correram pelo Pedregoso, deixando a
forte corrente empurrá-los para lá da Torre da Roda. O trovejar da
grande roda de água que havia lá dentro era um som de infância que
trouxe um sorriso triste ao rosto de Catelyn. Das muralhas de arenito
do castelo, soldados e criados gritavam o nome dela, e o de Robb, e
"Winterfell!". Em todos os baluartes esvoaçava o
estandarte da Casa Tully: uma truta saltante, de prata, em fundo
ondulado de azul e vermelho. Era uma visão estimulante; no entanto,
não lhe alegrava o coração. Gostaria de saber se o coração
voltaria a alegrar-se algum dia. Ah, Ned...
Abaixo da
Torre da Roda descreveram uma curva larga e cortaram as águas
agitadas. Os homens puseram os ombros no esforço. O arco largo do
Portão da Água surgiu à vista, e Catelyn ouviu o tinir de pesadas
correntes quando a grande porta levadiça de ferro foi içada.
Ergueu-se lentamente enquanto se aproximavam, e Catelyn viu que a
parte de baixo estava vermelha de ferrugem. Os trinta centímetros
inferiores pingaram lama sobre eles quando passaram por baixo, com as
pontas farpadas a meros centímetros de suas cabeças.
Catelyn
ergueu o olhar para as barras e se perguntou até que profundidade
iria a ferrugem, como aguentaria a porta levadiça um aríete e se
deveria ser substituída. Nos dias que corriam, era raro que
pensamentos como aquele andassem longe de sua mente.
Passaram
sob o arco e as muralhas, saindo do sol para a sombra e de novo para
o sol. Havia barcos, grandes e pequenos, amarrados em toda a volta,
presos a anéis de ferro incrustados na pedra. Os guardas do pai
esperavam com o irmão na escada da água. Sor Edmure Tully era um
jovem troncudo, de cabelos ruivos desgrenhados e barba cor de fogo.
Sua placa de peito tinha arranhões e deformações de batalha, e o
manto azul e vermelho estava manchado de sangue e de fumaça. Tinha
ao lado Lorde Tytos Blackwood, um homem duro e espigado, de suíças
cinzentas cortadas rente e nariz adunco. Sua armadura, de um amarelo
vivo, era incrustada de azeviche em elaborados padrões que lembravam
trepadeiras e folhas, e um manto feito de penas de corvo envolvia os
ombros magros. Fora Lorde Tytos quem liderara a investida que
arrancara o irmão de Catelyn do acampamento Lannister.
-
Traga-os - ordenou Sor Edmure. Três homens precipitaram-se pelas
escadas, entraram na água até os joelhos e puxaram o barco para
perto com longos ganchos. Quando Vento Cinzento saltou para a terra,
um deles deixou cair o cabo e cambaleou para trás, tropeçando e
sentando-se abruptamente no rio. Os outros riram, e o homem ficou com
expressão envergonhada.
Theon
Greyjoy saltou por cima da borda do barco e ergueu Catelyn pela
cintura, pousando-a num degrau seco acima dele enquanto a água lhe
batia nas botas.
Edmure
desceu os degraus para abraçá-la.
- Querida
irmã - murmurou com voz rouca. Possuía profundos olhos azuis e uma
boca feita para sorrisos, mas agora não sorria. Parecia desgastado e
cansado, consumido pela batalha e macilento de tensão. Tinha um
curativo no pescoço, no local onde fora ferido. Catelyn o abraçou
com toda a força.
- Sua dor
é minha, Cat - disse quando se separaram. - Quando soubemos o que
aconteceu a Lorde Eddard... os Lannister pagarão, juro, terá a sua
vingança.
- Isso me
trará Ned de volta? - ela disse em tom cortante. A ferida ainda era
demasiado recente para palavras mais suaves. Agora não conseguia
pensar em Ned. Não queria. Não seria bom. Tinha de ser forte. -
Tudo isso pode esperar. Tenho de ver meu pai.
- Ele a
espera em seu aposento privado - disse Edmure.
- Lorde
Hoster está acamado, senhora - explicou o intendente do pai. Quando
ficara aquele bom homem tão grisalho? - Deu-me instruções para
levá-la até ele imediatamente.
- Eu a
levo - Edmure a acompanhou pela escada da água e pela muralha
inferior, onde Petyr Baelish e Brandon Stark tinham no passado
cruzado espadas pela sua estima. As maciças muralhas de arenito da
fortaleza erguiam-se ao redor. Ao atravessarem uma porta, entre dois
guardas com elmos encimados por peixes, ela perguntou:
- Como
está ele? - já temendo a resposta enquanto pronunciava as palavras.
O olhar
de Edmure era melancólico.
- Os
meistres dizem que não ficará conosco muito tempo. A dor é...
constante, e atroz.
Uma raiva
cega a devastou, uma raiva contra o mundo inteiro, contra o irmão
Edmure e a irmã Lysa, contra os Lannister, contra os meistres,
contra Ned e contra o pai e contra os deuses monstruosos que queriam
lhe roubar os dois.
- Devia
ter me contado - disse. - Devia ter enviado uma mensagem assim que
soube.
- Ele nos
proibiu. Não queria que os inimigos soubessem que estava morrendo.
Com o reino tão perturbado, temeu que, se os Lannister soubessem
como estava frágil...
- ...
pudessem atacar? - terminou Catelyn, dura. Foi obra sua, sua,
sussurrou uma voz dentro dela. Se não tivesse decidido capturar o
anão...
Subiram
em silêncio a escada em espiral.
A
fortaleza tinha três lados, como o próprio Correrrio, e o aposento
privado de Lorde Hoster era também triangular, com uma varanda de
pedra que se projetava ao leste como se fosse a proa de um grande
navio de arenito. Dali, o senhor do castelo podia olhar de cima para
as suas muralhas e ameias, e para lá delas, para onde as águas se
encontravam. Tinham posto a cama do pai na varanda.
- Ele
gosta de ficar ao sol, observando os rios - explicou Edmure. - Pai,
olhe quem eu trouxe. Cat veio vê-lo...
Hoster
Tully sempre fora um homem grande, alto e largo na juventude,
corpulento quando envelheceu. Agora parecia encolhido, com o músculo
e a carne arrancados dos ossos. Até o rosto cedera. Da última vez
que Catelyn o vira, os cabelos e a barba eram castanhos, profusamente
grisalhos. Agora tinham se tornado brancos como a neve. Os olhos dele
se abriram ao som da voz de Edmure.
- Gatinha
- murmurou numa voz fraca e fina, arruinada pela dor. - Minha gatinha
- um sorriso trêmulo tocou-lhe o rosto enquanto a mão procurava a
dela às apalpadelas.
- Fiquei
à sua espera...
- Vou
deixados conversar - disse o irmão, beijando suavemente o senhor seu
pai na testa antes de se retirar.
Catelyn
ajoelhou e tomou a mão do pai nas suas. Era uma mão grande, mas
estava agora sem carne, com os ossos movendo-se soltos sob a pele,
desaparecida toda a sua força.
- Devia
ter me contado - disse ela. - Um mensageiro, um corvo...
- Os
mensageiros são capturados e interrogados - ele respondeu. - Os
corvos são abatidos... - foi tomado por um espasmo de dor, e os
dedos apertaram os dela com força. - Tenho caranguejos na barriga...
mordendo, sempre mordendo. Dia e noite. Têm garras duras, os
caranguejos. Meistre Vyman faz-me vinho de sonhos, leite da
papoula... durmo muito... Mas quis estar acordado para vê-la, quando
chegasse. Tive medo... Quando os Lannister capturaram seu irmão, com
os acampamentos a toda a volta... tive medo de partir antes de poder
voltar a vê-la... tive medo...
- Estou
aqui, pai - ela disse. - Com Robb, o meu filho. Ele também virá
vê-lo.
- O seu
rapaz - ele sussurrou. - Se bem me lembro, ele tinha os meus olhos...
- Tinha e
ainda tem. E trouxemos Jaime Lannister a ferros. Correrrio está de
novo livre, pai.
Lorde
Holster sorriu.
- Eu vi.
Ontem à noite, quando começou, eu lhes disse ... tinha de ver.
Levaram-me para a guarita... Observei das ameias. Ah, foi uma
beleza... os archotes chegaram numa onda, conseguia ouvir os gritos
que pairavam sobre o rio... doces gritos... Quando aquela torre de
cerco pegou fogo, deuses... teria morrido então, e contente, se
pudesse tê-la visto primeiro, criança. Foi o seu rapaz que assim
fez? Foi o seu Robb?
- Sim -
disse Catelyn, imensamente orgulhosa. - Foi Robb... e Brynden. Seu
irmão também está aqui, senhor.
- Ele - a
voz do pai era um tênue sussurro. - O Peixe Negro... regressou? Do
Vale?
- Sim.
- E Lysa?
- um vento frio moveu-se através de seus finos cabelos brancos. -
Que os deuses sejam bondosos, a sua irmã... ela também veio?
A voz
dele estava tão cheia de esperança e desejo que foi duro dizer-lhe
a verdade.
- Não.
Lamento...
- Ah - o
rosto descaiu, e alguma luz desapareceu dos olhos. - Tive
esperança... teria gostado devê-la, antes de...
- Ela
está com o filho, no Ninho da Águia.
Lorde
Hoster fez um aceno cansado.
- Agora
Lorde Robert, com o pobre Arryn falecido... eu me lembro... Por que é
que ela não veio com você?
- Está
assustada, senhor. No Ninho da Águia sente-se segura - beijou a
testa enrugada do pai. - Robb deve estar à espera. Quer vê-lo? E
Brynden?
- O seu
filho - segredou ele. - Sim. O filho de Cat. Lembro-me que ele tinha
os meus olhos. Quando
nasceu.
Traga-o... sim.
- E seu
irmão?
O pai
olhou de relance para os rios.
- Peixe
Negro - disse. - Já se casou? Tomou alguma... mulher como esposa?
Até no
leito de morte, pensou Catelyn com tristeza.
- Ele não
se casou. Sabe disso, pai. Nem nunca casará.
- Eu lhe
disse... ordenei. Casa! Era o seu senhor. Ele sabe. Era meu direito,
arranjar-lhe um partido. Um bom partido. Uma Redwyne. Casa antiga.
Uma doce jovem, bonita... sardas... Bethany, sim. Pobre criança.
Ainda espera. Sim. Ainda...
- Bethany
Redwyne casou há anos com Lorde Rowan - lembrou-lhe Catelyn. - Tem
três filhos dele.
- Mesmo
assim - resmungou Lorde Hoster. - Mesmo assim. Cuspiu na moça. Nos
Redwyne. Cuspiu em mim. O seu senhor, seu irmão... esse Peixe Negro.
Tinha outras ofertas. A filha de Lorde Bracken. Walder Frey...
qualquer uma das três, disse ele... Casou? Com alguém? Alguém?
- Ninguém
- disse Catelyn. - Mas percorreu muitas léguas para vê-lo, abrindo
caminho, lutando até Correrio. Eu não estaria aqui agora se Sor
Brynden não nos tivesse ajudado.
- Ele
sempre foi um guerreiro - sussurrou o pai. - Isso podia fazer.
Cavaleiro do Portão, sim - reclinou-se e fechou os olhos,
extremamente fatigado. - Mande-o vir. Mais tarde. Agora quero dormir.
Estou muito doente para discutir. Mande-o vir aqui mais tarde, o
Peixe Negro...
Catelyn
deu-lhe um beijo suave, alisou-lhe o cabelo e deixou-o ali, à sombra
da sua fortaleza, com os seus rios a correr embaixo. Adormecera antes
ainda de ela sair do aposento.
Quando
voltou à muralha inferior, Sor Brynden Tully encontrava-se na escada
da água com as botas molhadas, conversando com o capitão dos
guardas de Correrrio. Foi imediatamente ao seu encontro.
- Ele
está...?
-
Morrendo - disse ela. - Como temíamos.
O rosto
escarpado do tio mostrou claramente a dor que sentia. Fez correr os
dedos pelos espessos cabelos grisalhos.
- Vai me
receber?
Ela
confirmou com a cabeça.
- Diz que
está muito doente para discutir.
Brynden
Peixe Negro soltou um risinho.
- Sou um
soldado velho demais para acreditar nisso. Hoster há de ralhar
comigo a respeito da jovem Redwyne até quando acendermos a sua pira
funerária, malditos sejam os seus ossos.
Catelyn
sorriu, sabendo que aquilo era verdade.
- Não
vejo Robb.
- Acho
que foi com Greyjoy até o salão.
Theon
Greyjoy estava sentado num banco no Salão Grande de Correrrio,
saboreando um corno de cerveja e oferecendo à guarnição do pai de
Catelyn um relato do massacre no Bosque dos Murmúrios.
- Alguns
tentaram fugir, mas nós tínhamos fechado o vale pelos dois lados, e
saltamos da escuridão com espadas e lanças. Os Lannister deviam ter
pensado que eram os Outros quem os atacava quando aquele lobo do Robb
surgiu entre eles. Vi-o arrancar o braço de um homem, e os cavalos
deles enlouqueceram com o seu cheiro. Não sei dizer quantos homens
foram atirados...
- Theon -
interrompeu Catelyn - onde posso encontrar meu filho?
- Lorde
Robb foi visitar o bosque sagrado, senhora.
Era o que
Ned teria feito. Tenho de me lembrar que ele é tanto filho do seu
pai como meu. Ah, deuses, Ned... Encontrou Robb sob a verde abóbada
de folhas, rodeado de altas sequoias e grandes e velhos olmos,
ajoelhado perante a árvore-coração, um esguio represeiro com uma
cara que era mais triste que feroz. Tinha a espada à sua frente, com
a ponta espetada na terra, e as mãos enluvadas a agarravam pelo
punho. Ao seu redor, ajoelhavam-se também: Grande-Jon Umber, Rickard
Karstark, Maege Mormont, Galbart Glover e outros. Até Tytos
Blackwood se encontrava entre eles, com o grande manto de corvo
aberto atrás de si. Estes são os que fazem culto aos velhos deuses,
percebeu Catelyn. Perguntou-se que deuses ela cultuava nos dias que
corriam, e não encontrou resposta.
Não
podia perturbá-los nas suas preces. Os deuses têm de receber o que
lhes é devido... mesmo deuses cruéis que quiseram lhe roubar Ned e
também o senhor seu pai. Por isso, Catelyn esperou. O vento do rio
soprava através dos ramos mais altos, e olhou para a Torre da Roda,
à sua direita, com hera subindo pela parede. Enquanto esperava, foi
inundada por todas as memórias, O pai lhe ensinara a montar entre
aquelas árvores, e aquele era o olmo de onde Edmure caíra quando
quebrara o braço, e mais adiante, sob aquele caramanchão, Lysa e
ela tinham brincado aos beijos com Petyr.
Havia
anos que não pensava naquilo. Como eram todos novos então... ela
não seria mais velha que Sansa, Lysa, mais nova que Arya, e Petyr,
ainda mais novo, mas ávido. As meninas tinham-no trocado entre elas,
por vezes sérias, por vezes aos risinhos. A recordação era tão
viva que quase conseguia sentir os dedos suados dele nos seus ombros
e saborear a menta de seu hálito. Havia sempre menta crescendo no
bosque sagrado, e Petyr gostava de mascá-la. Fora um rapazinho tão
ousado, sempre metido em confusões. "Ele tentou enfiar a língua
na minha boca", confessara Catelyn à irmã mais tarde, quando
ficaram a sós. "Fez o mesmo comigo", segredara Lysa,
tímida e sem fôlego. "Eu gostei."
Robb
pôs-se lentamente em pé e embainhou a espada, e Catelyn
perguntou-se se o filho teria alguma vez beijado uma moça no bosque
sagrado. Certamente que sim. Vira Jeyne Poole lançar-lhe olhares
úmidos, e algumas das criadas, mesmo as que já tinham feito dezoito
anos... Ele participara de batalhas e matara homens com uma espada,
com certeza já fora beijado. Havia lágrimas nos olhos dela.
Limpou-as, zangada.
- Mãe -
chamou Robb quando a viu ali em pé. - Temos de convocar um conselho.
Há coisas para decidir.
- Seu avô
gostaria de vê-lo - ela disse. - Robb, ele está muito doente.
- Sor
Edmure me disse. Lamento, mãe... por Lorde Hoster e pela senhora.
Mas primeiro temos de nos reunir. Recebemos notícias do sul. Renly
Baratheon reivindicou o trono do irmão.
- Renly?
- ela disse, chocada. - Pensei que seria certamente Lorde Stannis...
- Todos
nós pensávamos o mesmo, senhora - disse Galbart Glover,
O
conselho de guerra reuniu-se no Grande Salão, em quatro longas mesas
de montar dispostas num quadrado quebrado. Lorde Hoster estava muito
fraco para participar e dormia em sua varanda, sonhando com o sol nos
rios de sua juventude. Edmure ocupava o cadeirão dos Tully, com
Brynden Peixe Negro a seu lado e os vassalos do pai dispostos à
esquerda e à direita e ao longo das mesas laterais. A notícia da
vitória em Correrrio chegara aos senhores fugitivos do Tridente,
atraindo-os de volta. Karyl Vance entrou, agora um lorde, com o pai
morto sob o Dente Dourado. Sor Marq Piper estava com ele, e trouxeram
um Darry, filho de Sor Raymun, um rapaz que não era mais velho que
Bran. Lorde Jonos Bracken chegou das ruínas da Barreira de Pedra,
carrancudo e fanfarrão, e ocupou um lugar tão afastado de Tytos
Blackwood quanto as mesas permitiam.
Os
senhores do Norte sentaram-se do lado oposto, com Catelyn e Robb em
frente ao irmão dela. Eram menos. Grande-Jon sentou-se à esquerda
de Robb, e em seguida Theon Greyjoy; Galbart Glover e a Senhora
Mormont estavam à direita de Catelyn. Lorde Rickard Karstark,
desolado e de olhos vazios na sua dor, ocupou seu lugar como um homem
perdido num pesadelo, com a longa barba por lavar e pentear. Deixara
dois filhos mortos no Bosque dos Murmúrios e não havia notícias do
terceiro, o mais velho, que liderara os lanceiros Karstark contra
Tywin Lannister no Ramo Verde.
A
discussão prolongou-se noite dentro. Cada senhor tinha direito a
falar, e foi o que fizeram... e também gritaram, e praguejaram, e
argumentaram, e lisonjearam, e brincaram, e regatearam, e bateram na
mesa com canecas de cerveja, e ameaçaram, e saíram, e regressaram,
mal-humorados ou sorrindo. Catelyn permaneceu sentada ouvindo tudo.
Roose
Bolton tinha reunido os restos de sua maltratada tropa no início do
talude. Sor Heiman Tallhart e Walder Frey ainda mantinham as Gêmeas,
o exército de Lorde Tywin atravessara o Tridente e dirigia-se para
Harrenhal. E havia dois reis no reino. Dois reis e nenhum acordo.
Muitos
dos senhores vassalos queriam marchar sobre Harrenhal de imediato, a
fim de defrontar Lorde Tywin e terminar com o poderio dos Lannister
de uma vez por todas. O jovem e temperamental Marq Piper sugeria, em
vez disso, um ataque a oeste contra Rochedo Casterly. Outros ainda
aconselhavam paciência. Correrrio estava atravessado nas linhas de
abastecimento dos Lannister, fez notar Jason Mallister; que
aguardassem o tempo certo, negando a Lorde Tywin provisões e
soldados frescos, enquanto iam fortalecendo as defesas e descansando
as tropas fatigadas. Lorde Blackwood não queria ouvir falar daquilo.
Deveriam terminar o trabalho que tinham começado no Bosque dos
Murmúrios. Marchar contra Harrenhal e trazer também para baixo o
exército de Roose Bolton. Àquilo que Blackwood sugeria, Bracken
opunha-se, como sempre; Lorde Jonos Bracken pôs-se em pé a fim de
insistir que deviam declarar lealdade ao Rei Renly e ir para o sul
juntar as suas forças às dele.
- Renly
não é o rei - disse Robb. Era a primeira vez que o filho de Catelyn
falava. Tal como o pai, sabia ouvir.
- Não
pode pretender aderir a Joffrey, senhor - disse Galbart Glover. - Ele
ordenou a morte de seu pai.
- Isso
faz dele um mal - respondeu Robb. - Não sei se faz de Renly rei.
Joffrey ainda é o filho legítimo mais velho de Robert, por isso o
trono é dele segundo todas as leis do reino. Se ele morresse, e
pretendo fazer com que morra, tem um irmão mais novo. Tommen segue
na linha de sucessão a Joffrey.
- Tommen
não é menos Lannister que o irmão - exclamou Sor Marq Piper.
- E como
diz - disse Robb, perturbado. - Mas, mesmo assim, se nenhum deles for
rei, como pode Lorde Renly sê-lo? Ele é o irmão mais novo de
Robert. Bran não pode ser Senhor de Winterfell antes de mim, e Renly
não pode ser rei antes de Lorde Stannis.
A Senhora
Mormont concordou.
- Lorde
Stannis tem a melhor pretensão.
- Renly
foi coroado - disse Marq Piper - Jardim de Cima e Ponta Tempestade
apoiam sua pretensão, e os de Dorne não ficarão atrás. Se
Winterfell e Correrrio acrescentarem suas forças às dele, teremos
cinco das sete grandes casas atrás dele. Seis, se os Arryn se
moverem! Seis contra o Rochedo! Senhores, dentro de um ano teremos
todas as suas cabeças em lanças, a rainha e o rei rapaz, Lorde
Tywin, o Duende, o Regicida, Sor Kevan, todos! Será isto que
ganharemos se nos juntarmos ao Rei Renly. Que tem Lorde Stannis
contra isso para que ponhamos tudo de lado?
- O
direito - disse teimosamente Robb, Catelyn achou que o filho soara
estranhamente como o pai,
- Tem
então tenção de nos declarar por Stannis? - perguntou Edmure.
- Não
sei - disse Robb. - Rezei para saber o que fazer, mas os deuses não
responderam. Os Lannister mataram meu pai por traição, e sabemos
que isso foi uma mentira, mas se Joffrey for o rei de direito e
lutarmos contra ele, nós seremos traidores.
- O
senhor meu pai aconselharia cautela - disse o idoso Sor Stevron, com
o sorriso de fuinha de um Frey. - Esperem, deixem que esses dois reis
joguem o seu jogo de tronos. Quando terminarem de lutar, podemos
dobrar os joelhos ao vencedor, ou podemos nos opor a ele, conforme
seja a nossa escolha. Com Renly armando-se, é provável que Lorde
Tywin acolha bem uma trégua... e a devolução em bom estado de seu
filho. Nobres senhores, permitam-me que vá conferenciar com ele em
Harrenhal e nos arranje bons termos e resgates...
Um rugido
de afronta afogou a sua voz.
-
Covarde! - trovejou Grande-Jon.
-
Suplicar por uma trégua só fará com que pareçamos fracos -
declarou a Senhora Mormont.
- Que se
danem os resgates, não devemos abdicar do Regicida - gritou Rickard
Karstark.
- Por que
não fazer a paz? - perguntou Catelyn.
Os
senhores olharam-na, mas foram os olhos de Robb que sentiu, os dele,
e apenas os dele.
-
Senhora, eles assassinaram o senhor meu pai, seu esposo - disse ele
em tom sombrio. Desembainhou a espada e pousou-a na mesa à sua
frente, fazendo cintilar o aço brilhante contra a madeira rústica.
- Esta é a única paz que eu tenho a dar aos Lannister.
Grande-Jon
berrou a sua concordância, e outros homens acrescentaram suas vozes,
gritando, desembainhando espadas e batendo na mesa com os punhos.
Catelyn esperou até que se calassem.
-
Senhores - disse ela então - Lorde Eddard era seu suserano, mas eu
partilhei sua cama e dei à luz os seus filhos. Julgam que o amo
menos que os senhores? - sua voz quase se quebrou, mas Catelyn
inspirou longamente e sossegou. - Robb, se esta espada pudesse
trazê-lo de volta, eu nunca deixaria que a embainhasse até que Ned
estivesse de novo ao meu lado... Mas ele partiu, e uma centena de
Bosques dos Murmúrios não mudarão isso. Ned partiu, tal como Daryn
Hornwood, tal como os valentes filhos de Lorde Karstark, tal como
muitos outros bons homens, e nenhum deles regressará para nós.
Precisaremos ainda de mais mortes?
- É uma
mulher, senhora - estrondeou Grande-Jon com sua voz grave - As
mulheres não compreendem estas coisas.
- É o
sexo gentil - disse Lorde Karstark, com rugas de dor frescas no
rosto. - Um homem tem necessidade de vingança.
- Dê-me
Cersei Lannister, Lorde Karstark, e verá quão gentil uma mulher
pode ser - respondeu Catelyn. - Eu talvez não compreenda as táticas
e a estratégia... mas compreendo a futilidade. Partimos para a
guerra quando os exércitos Lannister assolavam as terras do rio, e
Ned era um prisioneiro, falsamente acusado de traição. Lutamos para
nos defender e para conquistar a liberdade do meu senhor. Pois bem,
uma parte está feita, e a outra, para sempre além do nosso alcance.
Farei luto por Ned até o fim dos meus dias, mas tenho de pensar nos
vivos. Quero as minhas filhas de volta, e a rainha ainda as tem. Se
tiver de trocar os nossos quatro Lannister pelas duas Stark deles,
chamarei a isso uma pechincha e darei graças aos deuses. Quero-o a
salvo, Robb, governando em Winterfell do assento do seu pai. Quero
que desfrute sua vida, que beije uma moça, case com uma mulher e
gere um filho. Quero pôr fim a isto. Quero ir para casa, senhores, e
chorar pelo meu esposo.
O salão
ficou muito silencioso quando Catelyn parou de falar.
- Paz -
disse o tio Brynden. - A paz é doce, minha senhora... mas em que
termos? De nada serve forjar um arado a partir de uma espada se for
necessário forjar de novo a espada no dia seguinte.
- Para
que morreram Torrhen e o meu Eddard, se tiver de regressar a Karhold
sem nada a não ser os seus ossos? - perguntou Rickard Karstark.
- Sim -
disse Lorde Bracken, - Gregor Clegane arrasou meus campos, massacrou
meu povo e transformou Barreira de Pedra em uma ruína fumegante.
Deverei agora dobrar o joelho àqueles que lhe deram as ordens? Para
que lutamos, se pusermos tudo como era antes?
Lorde
Blackwood concordou, para surpresa e desânimo de Catelyn.
- E se
fizéssemos a paz com o Rei Joffrey, não seríamos então traidores
para o Rei Renly? E se o veado vencer o leão, em que situação
ficaremos?
- Seja o
que for que decidirem, nunca chamarei um Lannister de rei - declarou
Marq Piper.
- Nem eu!
- gritou o pequeno Derry. - Nunca o farei!
De novo
começaram os gritos. Catelyn sentou-se, desesperada. Estivera tão
perto, pensou. Tinham quase escutado, quase,., mas o momento passara.
Não haveria paz, não haveria possibilidade de sarar, não haveria
segurança. Olhou para o filho, observou-o enquanto escutava o debate
dos senhores, de sobrancelha franzida, perturbado, mas casado com a
sua guerra. Tinha prometido desposar uma filha de Walder Frey, mas
agora Catelyn via claramente a sua esposa: a espada que pousara na
mesa.
Catelyn
estava pensando nas filhas, perguntando-se se alguma vez voltaria a
vê-las, quando Grande-Jon se pôs em pé de um salto.
-
Senhores! - gritou, fazendo a voz reverberar nas traves. - Eis o que
eu digo a esses dois reis! - cuspiu. - Renly Baratheon não é nada
para mim, e Stannis também não. Por que haveriam de governar a mim
e aos meus de uma cadeira florida qualquer em Jardim de Cima ou
Dorne? Que sabem eles da Muralha ou da Mata de Lobos, ou das
sepulturas dos Primeiros Homens? Até os seus deuses estão errados.
Que os Outros levem também os Lannister, já tive deles mais do que
a minha conta - esticou a mão atrás do ombro e puxou a sua imensa
espada longa de duas mãos. - Por que não havemos de nos governar de
novo a nós próprios? Foi com os dragões que casamos, e os dragões
estão todos mortos! - apontou com a lâmina para Robb. - Está ali o
único rei perante o qual pretendo vergar o meu joelho, senhores -
trovejou. - O Rei do Norte!
Ajoelhou-se,
e depositou a espada aos pés do filho de Catelyn.
-
Aceitarei a paz nesses termos - disse Lorde Karstark. - Podem ficar
com o seu castelo vermelho e com a sua cadeira de ferro também -
tirou a espada da bainha. - O Rei do Norte! - disse, ajoelhando-se ao
lado de Grande-Jon.
Maege
Mormont pôs-se em pé.
- O Rei
do Inverno! - declarou, e pousou sua maça de espigões ao lado das
espadas.
E os
senhores do rio também estavam se erguendo, Blackwood, Bracken e
Mallister, casas que nunca tinham sido governadas por Winterfell, mas
Catelyn viu-os erguer-se e puxar as lâminas, vergando os joelhos e
gritando as velhas palavras que não eram ouvidas no reino havia mais
de trezentos anos, desde que Aegon, o Dragão, chegara para fazer dos
Sete Reinos um só... mas agora eram ouvidas de novo, ressoando no
madeirame do salão de seu pai:
- O Rei
do Norte!
- O Rei
do Norte!
- O Rei
do Norte!
70 - JON
A égua
relinchou baixinho quando Jon apertou a cilha.
- Calma,
querida senhora - disse ele em voz suave, acalmando-a com um afago. O
vento sussurrava no estábulo, uma fria respiração de morte no seu
rosto, mas Jon não lhe prestou atenção. Atou o rolo à sela,
sentindo os dedos cheios de cicatrizes rígidos e desastrados. -
Fantasma - chamou, em voz baixa - aqui - e o lobo ali estava, com
olhos que eram como brasas.
-Jon, por
favor. Não pode fazer isto.
Ele
montou, com as rédeas na mão, e fez o cavalo girar para a noite.
Samwell Tarly estava à porta do estábulo, com a lua cheia
espreitando-lhe sobre o ombro. Gerava uma sombra de gigante, imensa e
negra.
- Sai da
minha frente, Sam.
-Jon, não
pode - disse Sam. - Não vou deixar que faça isso.
- Eu
preferia não machucá-lo - disse-lhe Jon. - Afaste-se, Sam, ou o
atropelo.
- Não
fará. Precisa me ouvir. Por favor...
Jon
enterrou as esporas na carne da égua, que saltou para a porta. Por
um instante Sam manteve-se imóvel, com o rosto tão redondo e pálido
como a lua que tinha atrás, a boca transformada num O de surpresa
que se alargava. No último momento, quando já estavam quase sobre
ele, saltou para o lado como Jon soubera que faria, tropeçou e caiu.
A égua saltou sobre ele, penetrando na noite.
Jon subiu
o capuz de seu pesado manto e deixou as rédeas soltas. Castelo Negro
encontrava-se silencioso e imóvel quando cavalgou para o exterior,
com Fantasma correndo a seu lado. Sabia que havia homens observando
na muralha atrás de si, mas os olhos deles estavam virados para o
norte, não para o sul. Ninguém o veria partir, ninguém além de
Sam Tarly, que lutava para se pôr de pé na poeira dos velhos
estábulos. Esperava que Sam não tivesse se machucado ao cair
daquela maneira.
Era tão
pesado e desajeitado que seria mesmo coisa de Sam quebrar o pulso ou
torcer o tornozelo ao sair do caminho.
- Eu o
preveni - disse Jon em voz alta. - De qualquer forma, isto não tinha
nada a ver com ele - flexionou a mão queimada enquanto cavalgava,
abrindo e fechando os dedos cheios de cicatrizes. Ainda lhe doíam,
mas era bom não ter as ataduras.
O luar
prateava os montes enquanto ele seguia a fita retorcida da estrada
real. Precisava se afastar o máximo possível da Muralha antes que
percebessem que desaparecera. De manhã deixaria a estrada e
avançaria por campos, florestas e córregos a fim de despistar os
perseguidores, mas no momento a velocidade era mais importante que a
dissimulação. Afinal, não era como se eles não adivinhassem para
onde se dirigia.
O Velho
Urso estava habituado a se levantar à primeira luz da aurora,
portanto, Jon tinha até essa hora para pôr tantas léguas quantas
pudesse entre si e a Muralha, se Sam Tarly não o traísse. O gordo
rapaz era obediente e fácil de assustar, mas amava Jon como a um
irmão. Se fosse interrogado, não havia dúvida de que Sam lhes
diria a verdade, mas Jon não o imaginava desafiando os guardas à
porta da Torre do Rei para acordar Mormont. Quando Jon não
aparecesse na cozinha para ir buscar o café da manhã do Velho Urso,
procurariam na sua cela e encontrariam Garralonga sobre a cama. Tinha
sido duro abandoná-la, mas Jon não estava suficientemente despido
de honra para levá-la consigo. Nem mesmo Jorah Mormont o fizera
quando fugira em desgraça. Sem dúvida que Lorde Mormont encontraria
alguém mais merecedor daquela lâmina. Jon sentia-se mal ao pensar
no velho. Sabia que sua deserção seria como sal na ferida, ainda em
carne viva, da desgraça do filho.
Parecia
uma pobre maneira de lhe pagar pela confiança, mas nada havia a
fazer. Fizesse o que fizesse, Jon sentia-se como se estivesse traindo
alguém. Nem mesmo agora sabia se estava fazendo a coisa honrosa. Os
sulistas tinham a vida mais facilitada. Tinham seus septões com quem
falar, alguém para lhes desvendar a vontade dos deuses e os ajudar a
distinguir o bem do mal. Mas os Stark adoravam os velhos deuses, os
deuses sem nome, e se as árvores-coração ouviam, não falavam.
Quando as
últimas luzes de Castelo Negro desapareceram atrás dele, Jon
refreou a égua, pondo-a a trote. Tinha uma longa viagem à sua
frente e só aquele cavalo para transportá-lo. Havia fortificações
e aldeias de agricultores ao longo do caminho ao sul, onde
conseguiria trocar a égua por uma montaria descansada quando
precisasse de uma, mas não se estivesse ferida ou arrebentada.
Precisaria
encontrar novas roupas em breve; o mais provável era que tivesse de
roubar. Estava vestido de negro dos pés à cabeça; botas altas de
montar em couro, calças e túnica de ráfia, um colete de couro e um
pesado manto de lã. A espada e o punhal estavam embainhados em pele
negra de toupeira, e a camisa e a touca que tinha guardados no
alforje eram de cota de malha negra.
Qualquer
uma daquelas peças significaria sua morte se fosse apanhado. Um
estranho vestido de negro era visto com uma suspeita fria em todas as
aldeias e fortalezas a norte do Gargalo, e haveria em breve homens à
sua procura. Assim que os corvos de Meistre Aemon levantassem voo,
Jon sabia que não encontraria porto seguro. Nem mesmo em Winterfell.
Bran poderia querer deixado entrar, mas Meistre Luwin tinha mais
bom-senso. Trancaria os portões e o mandaria embora, tal como devia
fazer. Era melhor nem passar por lá.
Mas via
claramente o castelo com o olho da mente, como se tivesse partido no
dia anterior; as grandes muralhas de granito, o Grande Salão com os
seus cheiros de fumaça, de cães e de carne assando, o aposento
privado do pai, o quarto na torre onde dormira. Parte de si nada mais
desejava do que ouvir de novo a gargalhada de Bran, jantar uma das
tortas de carne com bacon de Gage, ouvir a Velha Ama contar as suas
histórias sobre os filhos da floresta e Florian, o Tolo.
Mas não
abandonara a Muralha para isso; partira porque era, no fim das
contas, filho de seu pai e irmão de Robb. O presente de uma espada,
mesmo de uma espada tão boa como Garralonga, não fazia dele um
Mormont. Tampouco era Aemon Targaryen. Três vezes o velho escolhera,
e três vezes escolhera a honra, mas isso era ele. Mesmo agora Jon
não conseguia decidir se o meistre ficara por ser fraco e covarde ou
por ser forte e leal. Mas compreendia o que o velho quisera dizer
quando falara da dor da escolha; compreendia isso bem demais.
Tyrion
Lannister afirmara que a maior parte dos homens mais depressa negava
uma verdade dura do que a encarava, mas Jon estava farto de negações.
Ele era quem era: Jon Snow, bastardo e perjuro, sem mãe, sem amigos
e perdido. Durante o resto de sua vida, não importa o quanto
durasse, estaria condenado a viver como um estranho, o homem
silencioso nas sombras que não se atreve a pronunciar o seu
verdadeiro nome. Aonde quer que fosse nos Sete Reinos precisaria
viver uma mentira, para que todas as mãos não se levantassem contra
ele. Mas não importava, desde que vivesse tempo suficiente para
ocupar o seu lugar ao lado do irmão e ajudar a vingar o pai.
Lembrava-se
de Robb como o vira pela última vez, em pé, no pátio, com neve
derretendo nos cabelos ruivos. Jon teria de encontrá-lo em segredo,
disfarçado. Tentava imaginar a expressão na cara de Robb quando ele
se revelasse, O irmão sacudiria a cabeça e sorriria, e diria...
diria...
Não
conseguia ver o sorriso. Por mais que tentasse, não conseguia vê-lo.
Deu por si pensando no desertor que o pai decapitara no dia em que
encontraram os lobos gigantes.
- Você
disse as palavras - dissera-lhe Lorde Eddard. - Você fez um
juramento perante os seus irmãos, perante os velhos deuses e os
novos - Desmond e Gordo Tom tinham arrastado o homem até ao toco. Os
olhos de Bran estavam dilatados como pires, e Jon tivera de lhe
lembrar que mantivesse o cavalo controlado. Lembrava-se da expressão
no rosto do pai quando Theon Greyjoy lhe dera Gelo, dos salpicos de
sangue na neve, do modo como Theon pontapeara a cabeça quando ela
rolara até junto de seus pés.
Perguntou-se
o que teria feito Lorde Eddard se o desertor fosse o irmão Benjen em
vez daquele estranho esfarrapado. Teria sido diferente? Tinha de ser,
com certeza, com certeza... e Robb lhe daria as boas-vindas, sem
dúvida. Tinha de fazê-lo, caso contrário...
Não
valia a pena pensar nisso. A dor latejou, bem no interior dos dedos,
quando se agarrou com força às rédeas. Jon bateu com os
calcanhares no cavalo e pôs-se a galope, correndo pela estrada real
como que para fugir das suas dúvidas. Não tinha medo da morte, mas
não queria morrer assim, amarrado e decapitado como um simples
salteador. Se tinha de perecer, que fosse de espada na mão, lutando
contra os assassinos do pai. Não era um verdadeiro Stark, nunca o
fora... mas podia morrer como se fosse. Que dissessem que Eddard
Stark fora pai de quatro filhos, não de três.
Fantasma
manteve o ritmo durante quase meia légua, com a língua vermelha
pendendo da boca. O homem e o cavalo abaixaram a cabeça quando ele
pediu mais velocidade à égua. O lobo desacelerou, parou,
observando, com os olhos brilhando, vermelhos, o luar. Desapareceu
atrás dele, mas Jon sabia que o seguiria, no seu próprio ritmo.
Luzes dispersas cintilaram através das árvores em frente, de ambos
os lados da estrada: Vila Toupeira. Um cão ladrou quando Jon passou
por ele, e ouviu o zurro rouco de uma mula vindo do estábulo, mas
fora isso a vila estava silenciosa. Aqui e ali, a cintilação das
lareiras brilhava em janelas cobertas, esgueirando-se por entre ripas
de madeira, mas eram só uma mão-cheia.
Vila
Toupeira era maior do que parecia, pois três quartos dela eram
subterrâneos, estendendo-se em profundas caves quentes ligadas por
um labirinto de túneis. Até o bordel ficava lá embaixo, sem nada
na superfície além de uma cabana de madeira que não era maior que
uma latrina, com uma lanterna vermelha pendurada sobre a porta. Na
Muralha podia-se ouvir os homens chamando às prostitutas "tesouros
enterrados", Jon perguntou a si mesmo se algum de seus irmãos
de negro estaria lá embaixo naquela noite, escavando. Isso também
era quebra de votos, mas ninguém parecia se importar.
Só bem
depois de passar pela vila é que Jon voltou a reduzir o passo. Nessa
altura ele e a montaria já estavam úmidos de suor. Desmontou,
tremendo, com a mão queimada doendo. Encontrou um monte de neve que
derretia sob as árvores, clara ao luar, pingando água que ia formar
pequenos charcos pouco profundos. Jon acocorou-se e juntou as mãos
em taça, aprisionando a água corrente entre os dedos. A neve
derretida estava fria como gelo. Bebeu, espalhou um pouco no rosto,
até sentir um formigamento nas bochechas. Os dedos latejavam mais do
que em qualquer dos últimos dias, e também sentia a cabeça
palpitar. Estou fazendo o que é certo, disse a si mesmo, então, por
que me sinto tão mal?
O cavalo
estava espumando, e Jon pegou nas rédeas e o levou a pé durante
algum tempo. A estrada quase não era suficientemente larga para que
dois cavaleiros passassem lado a lado, com o piso entrecortado por
pequenos córregos e cheio de pedras. Aquela corrida fora realmente
estúpida, um convite para um pescoço quebrado. Jon se questionou o
que lhe teria dado.
Estaria
assim com tanta pressa de morrer? No meio das árvores, o grito
distante de um animal assustado qualquer o fez erguer os olhos. A
égua relinchou nervosamente. Teria o lobo encontrado alguma presa?
Envolveu
a boca nas mãos.
-
Fantasma! - gritou. - Fantasma, a mim - a única resposta foi um
rumor de asas atrás de si quando uma coruja levantou vôo.
Franzindo
as sobrancelhas, Jon prosseguiu caminho. Levou a égua durante meia
hora, até que ela secou. Fantasma não apareceu. Jon queria montar e
voltar a cavalgar, mas estava preocupado com o lobo desaparecido.
-
Fantasma - voltou a chamar. - Onde está? A mim! Fantasma! - nada
naquela floresta podia incomodar um lobo gigante, até um lobo
gigante meio crescido, a menos que... não, Fantasma era inteligente
demais para atacar um urso, e se houvesse uma alcateia de lobos nas
imediações, Jon certamente os teria ouvido uivando.
Devia
comer, decidiu. Os alimentos lhe acalmariam o estômago e dariam a
Fantasma a chance de alcançá-lo. Ainda não havia perigo; Castelo
Negro ainda dormia. No alforje encontrou um biscoito, um pedaço de
queijo e uma pequena maçã escura e murcha. Trouxera também carne
de vaca salgada e uma fatia de bacon que surrupiara das cozinhas, mas
queria poupar a carne para o dia seguinte. Depois de ficar sem ela,
teria de caçar, e isso por hora o atrasaria.
Jon
sentou-se sob as árvores e comeu biscoito e queijo enquanto a égua
pastava ao longo da Estrada do Rei. Deixou a maçã para o fim. Tinha
se tornado um pouco mole, mas a polpa ainda estava ácida e
sumarenta. Já chegara ao caroço quando ouviu os sons: cavalos,
vindos do norte. Rapidamente, Jon saltou e correu para a égua.
Poderia fugir? Não, estavam perto demais, certamente os ouviriam, e
se viessem de Castelo Negro... Levou a égua para longe da estrada,
para trás de uma espessa mata de árvores-sentinela cinza-
esverdeadas.
- Agora
silêncio - disse, numa voz abafada, agachando-se a fim de espreitar
por entre os ramos. Se os deuses fossem bondosos, os cavaleiros
passariam sem detectá-lo.
O mais
provável era que fossem apenas pessoas simples de Vila Toupeira,
lavradores a caminho dos campos, se bem que, o que estariam fazendo
na estrada no meio da noite...
Ficou
ouvindo o som dos cascos que aumentava a um ritmo constante, enquanto
os cavalos se aproximavam a trote rápido pela Estrada do Rei.
Julgando pelo ruído, eram pelo menos cinco ou seis cavaleiros. As
vozes esgueiraram-se por entre as árvores.
-
...certeza de que ele veio por aqui?
- Não
podemos ter certeza..
- Tanto
quanto sabem, pode bem ter se dirigido para o leste. Ou abandonado a
estrada para cortar através da floresta. Era o que eu faria.
- Na
escuridão? Estúpido. Se não caísse do cavalo e quebrasse o
pescoço, se perderia e acabaria de volta à Muralha quando o sol
nascesse.
- Não
acabava nada - Grenn soava irritado. - Cavalgava para o sul. Pode-se
guiar pelas estrelas.
- E se o
céu estivesse nublado? - perguntou Pyp.
- Então
não ia.
Outra voz
interrompeu.
- Sabem
onde eu estaria, se fosse comigo? Em Vila Toupeira, para escavar
tesouros enterrados - o riso estridente do Sapo trovejou através das
árvores. A égua de Jon resfolegou.
-
Calem-se todos - disse Halder. - Acho que ouvi qualquer coisa.
- Onde?
Não ouvi nada - os cavalos pararam.
- Você
não consegue ouvir o próprio peido.
-
Consigo, sim - insistiu Grenn.
-
Calem-se!
Caíram
todos no silêncio, à escuta. Jon deu por si prendendo a respiração.
Sam, pensou. Não fora até o Velho Urso, mas também não fora para
a cama, acordara os outros rapazes. Malditos sejam todos. Chegada a
alvorada, se não estivessem nas camas, seriam também chamados
desertores. Que pensavam eles que estavam fazendo?
O
silêncio abafado pareceu esticar-se e voltar a esticar-se. De onde
Jon espreitava, conseguia ver as pernas dos cavalos deles através
dos galhos. Por fim, Pyp falou.
- Que foi
que ouviu?
- Não
sei - admitiu Halder. - Um som, pensei que pudesse ser um cavalo,
mas...
- Ali não
há nada.
Pelo
canto do olho Jon vislumbrou uma forma branca que se deslocava por
entre as árvores. Ouviu-se o restolhar de folhas, e Fantasma saiu
das sombras aos saltos, tão subitamente que a égua de Jon se
assustou e soltou um relincho.
- Ali! -
gritou Halder.
- Também
ouvi!
- Traidor
- disse Jon ao lobo gigante enquanto saltava para a sela. Virou a
cabeça da égua para escapulir por entre as árvores, mas eles
estavam em cima antes que avançasse três metros.
-Jon! -
gritou Pyp às suas costas.
- Para -
disse Grenn, - Não pode escapar de todos.
Jon fez
rodopiar a montaria para enfrentá-los, puxando a espada.
- Voltem.
Não quero machucar ninguém, mas o farei se tiver de ser.
- Um
contra sete? - Halder fez um sinal. Os rapazes espalharam-se,
rodeando-o.
- Que
querem de mim? - Jon quis saber.
-
Queremos levá-lo de volta para o seu lugar - disse Pyp.
- Meu
lugar é com meu irmão.
- Seus
irmãos agora somos nós - disse Grenn.
- Eles
cortam sua cabeça se o apanharem, sabe? - Sapo soltou uma gargalhada
nervosa. -Isto é tão estúpido, é como alguma coisa que um auroque
poderia fazer.
- Não é
nada - disse Grenn. - Não sou perjuro nenhum. Disse as palavras e
foi a sério.
- Eu
também - disse-lhes Jon. - Não compreendem? Eles assassinaram meu
pai. É a guerra, meu irmão Robb está lutando nas terras do rio...
- Nós
sabemos - disse Pyp solenemente. - Sam nos contou tudo.
- Temos
pena pelo seu pai - disse Grenn - mas não importa. Depois de dizer
as palavras, não pode partir, aconteça o que acontecer.
- Tenho
de partir - disse Jon fervorosamente.
- Você
disse as palavras - lembrou-lhe Pyp. - Agora começa a minha vigia,
foi isto que disse. Não terminará até a minha morte.
- Viverei
e morrerei no meu posto - acrescentou Grenn, concordando com a
cabeça.
- Não é
preciso me dizer as palavras, conheço-as tão bem como vocês -
agora estava zangado. Por que não podiam deixá-lo ir em paz? Só
tornavam as coisas mais difíceis.
- Soa a
espada na escuridão - entoou Halder.
- O
vigilante nas muralhas - piou Sapo.
Jon
insultou-os a todos. Eles não lhe deram atenção.
Pyp fez
avançar o cavalo, recitando:
- Sou o
fogo que arde contra o frio, a luz que traz consigo a alvorada, a
trombeta que acorda os que dormem, o escudo que defende os reinos dos
homens.
- Não se
aproxime - preveniu-o Jon, brandindo a espada. - Falo sério, Pyp -
eles nem sequer traziam armaduras, podia cortá-los aos pedacinhos se
tivesse de ser.
Matthar
rodeara-o por trás. E juntou-se ao coro.
- Dou a
minha vida e a minha honra à Patrulha da Noite.
Jon bateu
com os calcanhares na égua, fazendo-a descrever um círculo. Os
rapazes estavam agora em toda a sua volta, aproximando-se por todos
os lados.
- Por
esta noite... - Halder aproximou-se a trote, vindo da esquerda.
- ...e
por todas as noites que estão por vir - terminou Pyp. Estendeu a mão
para as rédeas de Jon. - Portanto, sua escolha é esta. Ou me mata
ou torna comigo.
Jon
ergueu a espada... e a abaixou, impotente.
- Maldito
seja - disse. - Malditos sejam todos,
- Temos
de atar suas mãos ou promete que voltará pacificamente? - perguntou
Halder.
- Não
fugirei, se é isso que quer saber - Fantasma saiu das árvores e Jon
enviou-lhe um olhar zangado. - Pouca ajuda você me deu - disse. Os
profundos olhos vermelhos olharam-no com inteligência.
- É
melhor que nos apressemos - disse Pyp. - Se não estivermos de volta
antes da primeira luz da aurora, o Velho Urso terá todas as nossas
cabeças.
Da viagem
de regresso Jon Snow pouco recordaria. Pareceu mais curta que a
viagem para o sul, talvez por ter a cabeça em outro lugar. Pyp
marcou o ritmo, galopando, ritmando o passo, trotando e depois
rebentando de novo a galope. Vila Toupeira chegou e partiu, já com a
lanterna por cima do bordel há muito extinta. Fizeram um bom tempo.
A alvorada ainda estava a uma hora de distância quando Jon
vislumbrou as torres de Castelo Negro à frente do grupo, escuras
contra a pálida imensidão da Muralha. Dessa vez não as sentia como
uma casa.
Podiam
levá-lo de volta, disse Jon a si mesmo, mas não podiam obrigá-lo a
ficar. A guerra não terminaria de manhã, nem no dia seguinte, e os
amigos não podiam vigiá-lo dia e noite. Esperaria a sua hora, faria
com que pensassem que se sentia satisfeito por permanecer ali... e
então, quando relaxassem, partiria de novo. Da próxima vez,
evitaria a Estrada do Rei. Seguiria a Muralha para o leste, talvez
até mesmo ao mar, uma trajetória mais longa, mas mais segura. Ou
até talvez para o oeste, para as montanhas, e depois para o sul
pelos passos de altitude. Era esse o caminho dos selvagens, duro e
perigoso, mas pelo menos ninguém o seguiria. Não se aproximaria cem
léguas de Winterfell ou da Estrada do Rei.
Samwell
Tarly os esperava nos estábulos velhos, abandonado no chão e de
encontro a um fardo de feno, ansioso demais para dormir. Ergueu-se e
sacudiu-se.
- Eu...
estou feliz por terem te encontrado, Jon.
- Mas eu
não - disse Jon, desmontando.
Pyp
saltou do cavalo e olhou para o céu que clareava, descontente.
- Dá-nos
uma ajuda para tratar dos cavalos, Sam - disse o pequeno rapaz. -
Temos um longo dia pela frente e nenhum descanso para enfrentá-lo,
graças a Lorde Snow.
Quando o
dia rompeu, Jon dirigiu-se às cozinhas como fazia todas as
madrugadas. Hobb Três-Dedos não lhe disse nada quando lhe deu a
refeição matinal do Velho Urso. Naquele dia eram três ovos
vermelhos cozidos, com pão frito, uma fatia de presunto e uma tigela
de ameixas secas. Jon levou a comida para a Torre do Rei. Foi
encontrar Mormont no banco da janela, escrevendo. O corvo caminhava
de um lado para o outro por cima de seus ombros, resmungando "Grão,
grão, grão". A ave soltou um guincho quando Jon entrou.
- Põe a
comida na mesa - disse o Velho Urso, olhando-o de relance. - Quero um
pouco de cerveja.
Jon abriu
uma janela que tinha os tapumes corridos, tirou o jarro de cerveja do
parapeito exterior e encheu um corno. Hobb dera-lhe um limão, ainda
frio da Muralha. Jon o esmagou no punho. O sumo escorreu-lhe por
entre os dedos. Mormont bebia limão na cerveja todos os dias, e
dizia que era por isso que ainda tinha os dentes,
- Sem
dúvida que amava seu pai - disse Mormont quando Jon lhe trouxe o
corno. - As coisas que amamos destroem-nos sempre, rapaz. Lembra de
quando lhe disse isso?
- Lembro
- disse Jon em tom carrancudo. Não queria falar da morte do pai, nem
mesmo com Mormont.
- Vê se
nunca se esquece. As verdades duras são aquelas que se deve segurar
bem. Vá buscar meu prato. E outra vez presunto? Que seja. Está com
um ar cansado. Seu passeio ao luar foi assim tão cansativo?
Jon
sentiu a garganta seca.
- Você
sabe?
"Saber",
disse o corvo dos ombros de Mormont. "Saber". O Velho Urso
bufou.
-Julga
que me escolheram para Senhor Comandante da Patrulha da Noite por ser
estúpido que nem um toco, Snow? Aemon disse-me que partiria. Eu lhe
disse que regressaria. Conheço os meus homens... e também os meus
rapazes, A honra o levou à Estrada do Rei... e a honra o trouxe de
volta.
- Foram
os meus amigos que me trouxeram de volta - disse Jon.
- Acaso
disse que tinha sido a sua honra? - Mormont inspecionou o prato.
- Mataram
meu pai. Esperavam que eu não fizesse nada?
- Em boa
verdade, esperávamos que fizesse precisamente o que fez - Mormont
experimentou uma ameixa e cuspiu o caroço. - Ordenei que fosse
vigiado. Você foi visto saindo. Se seus irmãos não o tivessem ido
buscar, teria sido apanhado no caminho, e não por amigos. A menos
que tenha um cavalo com asas como um corvo. Tem?
- Não -
Jon sentia-se um idiota.
- É
pena, um cavalo assim nos seria útil.
Jon
empertigou-se. Disse a si mesmo que morreria bem; isso, pelo menos,
podia fazer.
- Conheço
a pena por deserção, senhor. Não tenho medo de morrer.
"Morre!",
gritou o corvo.
- Nem de
viver, espero eu - disse Mormont, cortando o presunto com o punhal e
dando um bocado à ave. - Não desertou... ainda. Está aqui. Se
decapitássemos todos os rapazes que vão a Vila Toupeira durante a
noite, só fantasmas patrulhariam a Muralha. Mas talvez pretenda
fugir de novo amanhã, ou daqui a uma quinzena. E isso? É essa a sua
esperança, rapaz?
Jon
manteve-se em silêncio.
- Era o
que eu pensava - Mormont tirou a casca de um ovo cozido. - Seu pai
está morto, rapaz. Julga que pode trazê-lo de volta?
- Não -
respondeu, carrancudo.
- Ótimo
- disse Mormont. - Vimos os mortos regressar, você e eu, e não é
algo que eu queira ver de novo - comeu o ovo em duas dentadas e
arrancou um pedaço de casca do meio dos dentes. - Seu irmão está
no terreno com todo o poder do Norte com ele. Qualquer um dos
senhores seus vassalos comanda mais espadas do que poderá encontrar
em toda a Patrulha da Noite. Por que imaginará você que precisam da
sua ajuda? É um guerreiro assim tão poderoso, ou tem um gramequim
no bolso para te dar magia à espada?
Jon não
tinha resposta para lhe dar. O corvo bicava um ovo, quebrando a
casca. Enfiando o bico através do buraco, puxou bocados de clara e
de gema. O Velho Urso suspirou.
- Não é
o único atingido por esta guerra. Quer eu goste quer não, minha
irmã marcha na tropa do seu irmão, ela e aquelas suas filhas,
vestidas com cotas de malha de homem. Maege é uma velha snark
grisalha, teimosa, com mau gênio e voluntariosa. A bem da verdade,
quase não consigo estar perto da maldita mulher, mas isso não quer
dizer que meu amor por ela seja menor que o amor que sente pelas suas
meias-irmãs - franzindo as sobrancelhas, Mormont pegou o último ovo
e o esmagou no punho até que a casca estalou. - Ou talvez queira.
Mas, seja como for, me desgostaria da mesma forma se ela fosse morta,
e você não me vê fugir. Eu disse as palavras, tal como você. Meu
lugar é aqui... Onde é o seu, rapaz?
Não
tenho lugar nenhum, Jon quis dizer. Sou um bastardo, não tenho
direitos, nem nome, nem mãe, e agora nem sequer um pai. Mas as
palavras não vinham.
- Não
sei.
- Eu sei
- disse o Senhor Comandante Mormont. - Os ventos frios se levantam,
Snow. Para lá da Muralha, as sombras alongam-se. Cotter Pyke escreve
sobre vastas manadas de alces correndo ao sul e a leste na direção
do mar, e também de mamutes. Diz que um de seus homens descobriu
enormes pegadas deformadas a menos de três léguas de Atalaialeste.
Patrulheiros da Torre Sombria encontraram aldeias inteiras
abandonadas, e de noite Sor Denys diz que veem fogueiras nas
montanhas, enormes clarões que ardem do pôr do sol até a alvorada.
Quorin Halfhand trouxe um cativo das profundezas da Garganta, e o
homem jura que Mance Rayder está reunindo toda a sua gente num novo
forte secreto que acreditam ter encontrado, para que fim só os
deuses sabem. Julga que seu tio Benjen foi o único patrulheiro que
perdemos neste último ano?
"Ben
Jen", crocitou o corvo, inclinando a cabeça., com pedacinhos de
ovo caindo do bico. "Ben Jen. Ben Jen"
- Não -
disse Jon. Tinha havido outros. Muitos.
- Julga
que a guerra do seu irmão é mais importante que a nossa? - ladrou o
velho.
Jon
mordeu o lábio. O corvo bateu as asas na sua direção. "Guerra,
guerra, guerra, guerra", cantou.
- Não é
- disse-lhe Mormont. - Os deuses nos salvem, rapaz, você não é
cego e não é estúpido. Quando os mortos andam à caça na noite,
julga que importa quem se senta no Trono de Ferro?
- Não -
Jon não pensara no assunto daquela maneira.
- O
senhor seu pai o enviou até nós, Jon. Por que, quem poderá
dizê-lo?
"Por
quê? Por quê? Por quê?", gritou o corvo.
- Tudo o
que sei é que o sangue dos Primeiros Homens corre nas veias dos
Stark. Os Primeiros Homens construíram a Muralha, e diz-se que se
lembram de coisas que os outros esqueceram. E aquele seu animal...
foi ele que nos levou às criaturas, que o preveniu do morto nas
escadas. Sor Jaremy chamaria sem dúvida a isso um acaso, mas ele
está morto, e eu não - Lorde Mormont espetou a ponta do punhal num
pedaço de presunto. - Acho que era o seu destino estar aqui, e quero
você e seu lobo conosco quando avançarmos para lá da Muralha.
As
palavras fizeram com que as costas de Jon se arrepiassem de
excitação.
- Para lá
da Muralha?
- Você
ouviu o que eu disse. Pretendo encontrar Ben Stark, vivo ou morto -
mastigou e engoliu. - Não vou ficar aqui docilmente sentado à
espera das neves e dos ventos gelados. Temos de saber o que está
acontecendo. Desta vez, a Patrulha da Noite avançará em força,
contra o Rei-para-lá-da-Muralha, os Outros, ou seja o que for que se
encontre por lá. Pretendo ser eu próprio a comandá-los - apontou o
punhal para o peito de Jon. - Segundo o costume, o intendente do
Senhor Comandante é também o seu escudeiro... mas não pretendo
acordar todas as manhãs perguntando a mim mesmo se terá fugido de
novo. Por isso quero uma resposta de você, Lorde Snow, e quero-a já.
É um irmão da Patrulha da Noite... ou só um rapazinho bastardo que
quer brincar de guerra?
Jon Snow
endireitou-se e inspirou profunda e longamente. Perdoem-me, pai,
Robb, Arya, Bran... perdoem-me não posso ajudá-los. Ele tem razão.
É este o meu lugar.
- Eu
sou... seu, senhor. Seu homem. Juro. Não voltarei a fugir.
O Velho
Urso resfolegou.
- Ótimo.
Agora vá buscar sua espada.
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